Foi pela captura da imagem em movimento de “Uma Vista da Baia da Guanabara” que, em 1898, o Brasil magicamente entraria no mundo da produção cinematográfica. Nascido três anos antes na França, o cinema deu os primeiros passos no Brasil pelas câmeras do imigrante italiano Affonso Segretto quando este desembarcou no Rio de Janeiro. A exemplo do que ocorreu há quase 200 anos e no começo dos anos 1990 do século passado – quando a era Collor decretou o fim da Embrafilme, responsável por fomentar o setor – novamente retomamos sonhos em som e imagem com a fúria da criatividade de nossos realizadores audiovisuais.  

Nesse 19 de junho, Dia Do Cinema Brasileiro muito há o que se comemorar e continuar lutando para conquistar, como a manutenção da Ancine (Agência Nacional de Cinema), entidade que não só regula toda a cadeia produtiva como incentiva o produto audiovisual brasileiro e os profissionais mundo afora; a pressão perante as bizarrices do governo bolsonarista que nomeia a “namoradinha do Brasil” e agora o “galã da Malhação” para a Secretaria Nacional de Cultura, que fica no Ministério da Cidadania e define políticas públicas para arte e expressões culturais; a criação de mecanismos que possibilitem respiros especialmente nesses tempos tão desafiadores de Pandemia, como a Lei do Audiovisual Paraense (PL 417/2019), prestes a tramitar na Assembleia Legislativa do Pará, precisando de um empurrãozinho da sociedade civil e contando com o empenho de diversos atores da indústria do cinema local, que se engajaram na causa como Dira Paes.  

Mas para recapitular um pouco a trajetória do nosso cinema, segue uma pergunta norteadora: que cinema do oprimido é esse que se apresenta nas telas do país desde tempos remotos? Paulo Freire diria que a dominação do opressor do oprimido se perpetua pela dominação cultural e um ótimo exemplo é a ideologia norte-americana perpetrada pelo cinema. Ela está tão arraigada nos corações e mentes da plateia, especialmente após o advento do som que fica difícil concorrer sem se submeter as formulaicas narrativas clássicas. Mesmo com esses entremeios, há um respiro e o impacto certeiro de “Limite”, o filme-marco eleito pela Abraccine como o melhor de nossa trajetória. Para além de Mário Peixoto e sua obra seminal, o legado de pioneiros como Humberto Mauro – que influenciaria Eduardo Coutinho e tantos outros documentaristas -, de Carmen Santos, Gilda de Abreu e Mazzaropi precisa ser reconhecido e revisitado… Ou mesmo a filmografia de outros personagens admiráveis do nosso cinema, que tem tardiamente sua importância (re)conhecida como Cléo de Verberena e Adélia Sampaio. Como Linduarte Noronha e seu “Aruanda”. 

Sejam elas estéticas, sociais, culturais ou políticas, as histórias que o nosso cinema conta (e as que também omite) validam a nossa tão jovem democracia brasileira, que mesmo maltratada pelos vilões autoritários resiste. São narrativas que revelam a diversidade de raças, vocabulários, credos, paisagens, idiossincrasias que tornam o Brasil tão denso e plural e que precisam inundar todas as telas. Que cada vez mais cineastxs pretas, trans, indígenas, tenham condições de narrar suas histórias e alcançar o público. Que o Audiovisual periférico, contra hegemônico e revolucionário – pressuposto do cinema novo com as obras de Glauber Rocha, Sérgio Person, Linduarte Noronha e Helena Solberg – siga reverberando pelo mundo mostrando nossa verdadeira face. A genialidade presente em vários frames, cenas e sequências do nosso cinema (tão mal quisto por alguns que o consideram de má qualidade perante os blockbusters hollywoodianos) permanece e alimenta o imaginário das novas gerações de cineastas. Gente que se apropria dos formatos e com um celular na mão porta uma poderosa arma metafórica que, abastecida das ideias e de discursos potentes, se impõe nas redes ou nas salas de exibição. Ocupa, traduz a poética cotidiana (como aquelas marcantes conjecturas de Ana Carolina sobre a mocidade das meninas, dos subúrbios cariocas por Nelson Pereira dos Santos ou as tropicalistas de Joaquim Pedro de Andrade e a turma da Boca do Lixo), aponta para a frente e restaura uma certa fé no que virá.  

Que a irmandade que se desenha nos movimentos do audiovisual brasileiro ou mesmo ao longo do pleito pela lei Aldir Blanc – que dá alguma seguridade social aos milhares de trabalhadores da cultura – inspire mais transformações. Os festivais e mostras de cinema online que cumprem um papel fundamental na democratização do acesso ou mesmo as lives e Webinários que encurtam distâncias e aproximam Kleber Mendonça Filho, Laís Bodanzky, Sabrina Fidalgo, Karim Ainouz, Anna Muylaert, Rodrigo Teixeira e tantos outros nomes de cineastas com projeção daqueles que estão tateando os caminhos para ter êxito. Que essa dinâmica, essas ações e momento generoso siga sendo a tônica dominante para que tenhamos mais anos e séculos de cinema brasileiro, gerando emprego, renda, expressando valor, cidadania e preservando a nossa própria identidade. A maneira que o Brasil se enxerga nas telas diz muito sobre o país do futuro. Desse futuro que é instantâneo, sem tempo a perder. Que é o aqui e agora. 

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