Brian de Palma é um nome para não esquecer. Além da pomposa pronúncia, a sua marca no cinema hollywoodiano é sem precedentes e colocou o nome dele no Olimpo dos grandes diretores estadunidenses.
Com sua paixão quase que obsessiva por Alfred Hitchcock, De Palma deu luz aos mais diversos clássicos como “Carrie, A Estranha” (1976), “Vestida Para Matar” (1980), “Um Tiro na Noite” (1981) e “Scarface” (1983), só para citar alguns. Com muitos louros que perpassam os anos 1960, 1970 e 1980, o diretor adentrou os anos 1990 com fracassos de crítica e público, portanto, precisava de mais um grande filme para chamar de seu.
Eis que surge a oportunidade de dirigir “O Pagamento Final” que não aceitou de prontidão pelo motivo de ser um filme de gangster latino protagonizado por Al Pacino, bem similar ao primeiro filme juntos, “Scarface”. Ledo engano: com roteiro amarradíssimo de David Koepp (“A Morte lhe Cai Bem”, “Jurassic Park”, “Missão: Impossível”, Homem-Aranha, etc.), De Palma imprimiu um novo frescor aos filmes do gênero que seria copiado (e não tão bem executado) extensamente nos anos posteriores.
Baseado nas tramas de Edwin Torres, a história gira em torno de Carlitos Brigante (Pacino), um ex-traficante figurão que, depois de cinco anos, é libertado da prisão graças ao advogado nada ortodoxo David Kleinfeld (Sean Penn, genial), e decide sair do mundo do crime, ajustar a vida e viver feliz no paraíso das Bahamas com a amada Gail (Penelope Ann Miller, a doçura dela lembra a Naomi Watts). Há de se imaginar que nada sai como o planejado.
A voz em off de Carlitos já entrega de início: vai morrer! A expectativa, portanto, é como e se há alguma salvação para ele ao longo das suas quase 2h30.
Por ser uma obra que se assemelha muito com a primeira parceria de Palma/Pacino, o diretor optou, aqui, em apostar na melancolia e no questionamento dos vícios e virtudes que levam o sujeito ao estado presente de subversão. Carlitos é errático e tem noção de sua brutalidade e da nocividade das pessoas ao seu redor como ele, por isso quer se afastar ao máximo, é um novo homem, afinal, ele acredita nisso. Mas como ele mesmo diz “um favor mata mais rápido que uma bala” é exatamente esse favor que deve ao seu grande amigo Kleinfeld que o leva à ruína.
Assistir De Palma é sempre uma experiência e aqui não seria diferente. O modus operandi de Carlitos para sair desse submundo, aliado ao fato de sua paixão por Gail coordenam esse clássico que poderia cair em um dramalhão de quinta categoria mas ele soube dosar o drama/romance e a tensão de uma vida (des) regrada em um longa tão carismático quanto charmoso e isso se deve ao combo de uma grande equipe: direção, roteiro, atores, cenografia, fotografia e uma trilha sonora fantástica que desfoca um pouco da sua apreensão.
Os planos e cortes são partes fundamentais aqui: a cena de Carlitos e Gail no apartamento remete à Jack Nicholson em “O Iluminado” e homenagens não faltam, desde sua referência maior, Hitchcock, até a sensibilidade aflorada de um gângster à lá Humphrey Bogart, e o próprio brinca sobre isso.
A sequência final na estação de metrô é um ode à tensão pura que somada uma trilha sonora um tanto mais clean que o costume nesse tipo de cena, é uma grande contemplação.
O elenco é espetacular, desde Pacino, passando pelo encanto de Penelope e participações precisas de John Leguizamo (o Benny Blanco do Bronx, não confundir com o produtor musical e o atual da Selena Gomez), Ingrid Rogers, Viggo Mortensen e o sempre espirituoso que aproveita cada minuto que tem para chamar a atenção, Luis Guzmán. Porém, o grande nome do elenco é o Sean Penn, não há dúvidas.
Entre tiros, sotaques carregados, latinos vs. italianos, gângsters, uma musa salvadora e questões morais, de otimismo e sonhos podem ser realizados mesmo que às avessas, De Palma nos entregou humor, drama, muito padê e paixão e um anti-herói carismático e inesquecível.














