Como todos os aspectos do cinema nos últimos anos, as carreiras de atores e atrizes têm passado por mudanças: tornou-se comum o fenômeno dos grandes atores dramáticos aceitando participar de projetos de gênero, como forma de continuarem trabalhando após uma certa idade ou para se manterem relevantes. Os casos mais emblemáticos, na minha visão, são os de Robert De Niro, talvez o maior ator da história do cinema, que há algumas décadas tem se aventurado em comédias; e o de Liam Neeson – o ator conhecido por figuras de autoridade em filmes sérios, um dia fez Busca Implacável (2008) e caiu nas graças do público ao distribuir tiros e bordoadas. Desde então ele construiu uma carreira no gênero ação.

Claro, os filmes que eles fizeram tem níveis variados de qualidade, mas ajudaram a manter ambos no mercado, trabalhando. E não se engane, leitor, é um trabalho: atores têm que pagar as contas igual a qualquer um de nós. Se forem trabalhar só por amor à arte ou esperar por roteiros incríveis, vão morrer de fome. Sempre gosto de lembrar da anedota que o Viggo Mortensen contou há alguns anos sobre o veterano das telas Lance Henriksen, que tem centenas de créditos e fez ponta até em novela brasileira, e da Record ainda por cima! Um dia, Mortensen – que dirigiu Henriksen no bom drama Ainda Há Tempo (2020) – perguntou ao amigo porque ele trabalhava tanto, ao que o já idoso ator respondeu: “Alguns dos meus filmes são os de pensão alimentícia. Tenho pensão para pagar”.

CAMINHO TUMULTUADO

O que nos traz a este O Exorcismo, que parece confirmar a guinada do vencedor do Oscar Russell Crowe para o gênero terror. Ano passado, Crowe estrelou no trash divertido O Exorcista do Papa (2023), e agora enfrenta o tinhoso novamente, em um filme sem relação com o anterior. No entanto, este projeto aqui tem seus pormenores…

Uma rápida pesquisa online mostra que este O Exorcismo foi feito antes de O Exorcista do Papa – as filmagens foram encerradas em 2019! Porém os produtores, ao verem o resultado final, engavetaram o filme. Só depois do sucesso de O Exorcista do Papa eles se animaram, convocaram o diretor e alguns dos atores para dias de filmagens adicionais e finalizaram o longa, que agora chega às telas. Isso já indica um pouco como ficou a qualidade final, certo?

Sim, o produto final exibe sinais desse caminho tumultuado às telas. No filme, Crowe faz o papel de Anthony Miller, um ator que teve um passado tumultuado e hoje é considerado um cara em decadência. Ele topa estrelar um projeto de terror no papel de um padre exorcista, depois que o intérprete anterior do papel morre e então coisas estranhas começam a acontecer: a filha o vê andando como sonâmbulo em casa, seu comportamento fica errático e não demora muito, ele está falando em latim e se contorcendo de maneiras impossíveis. A filha e um padre consultor da produção são os únicos capazes de ajudá-lo.

E o filme dentro do filme, que Anthony Miller está estrelando, parece muito com um remake do clássico O Exorcista (1973): até o cenário da casa construída em estúdio e o estilo de fotografia da filmagem lembram o longa de William Friedkin que ainda hoje arrepia muita gente. Pois bem, o diretor e roteirista de O Exorcismo é Joshua John Miller, filho do ator e dramaturgo Jason Miller (1939-2001), intérprete do padre Karras no clássico. O diretor diz que se inspirou em causos que seu pai contou e em histórias macabras em sets de filmagem para conceber o projeto.

CAINDO EM TENTAÇÃO

É uma ótima ideia… Mas infelizmente nem o roteiro nem a direção a desenvolvem a contento. O filme é simplesmente muito fraco: tenta homenagear/fazer referência a O Exorcista e abordar conflitos dramáticos – o protagonista foi abusado por padres quando o jovem, o que o levou ao alcoolismo – mas é tudo apenas jogado na história, sem ser explorado. Toda a carga dramática fica nas costas de Crowe que faz o possível para extrair leite de pedra das situações.

E na sua segunda metade é onde se percebe a interferência dos produtores: o projeto que poderia explorar o que acontece em um set de filmagem e a noção de que atores às vezes são “possuídos” por seus personagens, começa a incluir jumpscares frequentes para assustar o espectador com barulhos altos e a cair nos clichês dos filmes de possessão demoníaca. O clímax é uma cena de exorcismo canhestra na qual vemos Crowe com uma maquiagem boba e simplória.

No meio do filme, aparece uma cena engraçada: o astro de “Gladiador” se contorce de um jeito tenebroso na frente de toda a equipe e cai desmaiado. Logo depois, o diretor – personagem horrível, o autêntico picareta e que só serve para vomitar diálogo expositivo – está falando com outro ator para substituir Crowe, de um jeito calmo, como se este tivesse apenas dado uma topada no cenário, e não executado uma cena aterrorizante. É um momento tão bizarro que só pode ter saído de interferência de produtores para inserir à força no filme uma morte mais à frente na história.

UM DESEJO

No fim das contas, este O Exorcismo até tem umas boas ideias aqui e ali, mas não as abraça e acaba seguindo a trilha comum e batida desse tipo de filme. E de quebra, o fato de ficar sempre trazendo à tona a lembrança de um dos maiores filmes de terror de todos os tempos também não ajuda – mas ainda assim, ele é melhor que O Exorcista: O Devoto (2023)…

E voltando a Russell Crowe: como esperado, ele ainda é a melhor coisa aqui e faz o que pode para manter o interesse do espectador, mas é um esforço em vão. Mesmo assim, se comporta como profissional e leva o personagem e o filme a sério. Esse é o verdadeiro ator de cinema: pode até estar numa bomba, mas o filme não é ruim por causa dele. Além disso, O Exorcista do Papa em breve vai ganhar sequência, então a caminhada de Crowe pelo terror vai continuar. Atores precisam trabalhar, e o profissionalismo faz parte do ofício.

E numa nota pessoal, espero mesmo que, se alguém um dia se meta a refilmar O Exorcista, que o set seja amaldiçoado e o tinhoso venha no meio da noite puxar os pés dos envolvidos.