Recentemente, a Rede Globo lançou sua primeira novela inédita na era pandêmica: “Nos Tempos do Imperador”. Desde então, a produção vem recebendo críticas ferozes de tweeteiros que apontam problemas históricos na trama de Dom Pedro II. Ironias à parte, tudo que a trama romantiza encontra ecos antagônicos e verossímeis em “Doutor Gama”, de Jeferson De (“M-8: Quando a Morte Socorre a Vida”).

Acompanhamos a trajetória de Luiz Gama (César Mello). Nascido livre, é vendido como escravo aos 10 anos pelo pai branco, a fim de pagar suas dívidas. Já adulto, conhece Antônio (Jhonny Massaro), um estudante de direito que o ensina a ler e a conquistar sua liberdade. Anos depois, Gama torna-se advogado e um célere abolicionista, sendo um dos símbolos do movimento preto e da luta antirracial brasileira.

ROTEIRO PRECISO E CORES SIMBÓLICAS

A cinebiografia é bem direta no que pretende dizer. Somos convidados a compreender três estágios da jornada de Gama: seu entendimento como escravo, a descoberta da liberdade por meio da leitura e sua consolidação como homem de leis e defensor de seu povo. A obra é bem pontuada e assertiva em cada um desses processos. O roteiro de Luiz Antônio, além de se ater a mostrar apenas o que é necessário para que o público compreenda a trajetória do protagonista, é sensível ao não explicitar imagens do sofrimento do povo preto como muleta narrativa.

Ao lado do diretor de fotografia Cristiano Conceição, Jeferson De cria imagens que se assemelham esteticamente a pinturas, como a cena em que os escravizados caminham pela mata a noite. As cores são muito presentes em toda a produção e carregam simbolismos determinantes, como o vermelho sob o rosto da mulher preta abusada ou o amarelo que predomina nas cenas na casa de Gama. Mesmo assim, a maior força da narrativa está nos diálogos fortes e necessários.

A FORÇA DOS ARGUMENTOS

O roteiro se assemelha a um capítulo expandido de uma série, o que não o prejudica, dado que essa construção facilita assimilação e a conexão com públicos distintos. Embora os diálogos sejam diretos e decisivos, não há tom acusatório ou didático. Pelo contrário, Gama apresenta argumentos convincentes e racionais para libertar seus clientes, mostrando amor e dedicação pelo ofício. Estima-se que, por meio da sua tática argumentativa, ele tenha libertado mais de 500 escravizados e adotado um método único, apoiado inteiramente nas leis abolicionistas nacionais.

Isso pode ser visto no último ato de “Doutor Gama”, quando a cinebiografia se transforma em um filme de tribunal. A cena é interessante para contrapor dois pensamentos que predominavam na época. De um lado, abolicionistas e do outro, escravocratas conservadores. Os dois discursos potentes ainda se mantêm atualíssimos e, por isso, o momento ganha contornos tão emblemáticos.

“Doutor Gama” é uma cinebiografia que se apoia no resgate histórico para apresentar um herói nacional. Sem discursos enfadonhos ou cenas inverossímeis, Jefferson De constrói uma produção necessária, histórica e pronta para ser consumida pelos mais diversos públicos. Uma ótima forma de popularizar os reais guerreiros da nação brasileira.

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