Uma pose que cuidadosamente forja displicência ao lado de uma piscina, o Oscar vencido na noite anterior em uma mesa e, espalhados, jornais que noticiam a vitória. Era 1977 quando Faye Dunaway alcançava o topo do mundo e coroava dez anos como parte importante da Nova Hollywood. Mais de quatro décadas depois, a foto de Terry O’Neill já ganhou várias imitações, mas a original segue como uma imagem do “e agora?” que vem depois do sucesso.
Essa foto é o ponto de partida de “Faye”, documentário dirigido por Laurent Bouzereau sobre a atriz. O problema é que o talento, o rosto e a persona de Faye são fascinantes demais para uma hora e meia de filme. Partir de um momento seminal da cultura pop para falar de alguém tão relevante para a Nova Hollywood é um risco que o filme não sustenta.
No filme, cada tentativa de mensurar a importância de Faye para o cinema é interrompida. É a mesma narrativa aborrecida da qual padecem tantos documentários sobre estrelas do cinema e da TV dos Estados Unidos (Mary Tyler Moore e Tina Turner são exemplos recentes de estrelas que se tornaram tema de documentários que mais parecem retirados da Wikipedia).
A superficialidade corta até mesmo momentos que entrelaçam Faye às mulheres que ela viveu em cena, mas, ao menos, posso dizer que sobrou espaço na minha mente para pequenas elucubrações. Um exemplo foi quando, ao vê-la falar de seu primeiro nome e como ele comporta uma pessoa completamente diferente da jovem que ganhou o mundo em “Bonnie & Clyde”, logo pensei em como Joan Crawford precisou se despir de Lucille Le Seur em uma indústria que podava totalmente suas estrelas (e Joan seria interpretada por Faye em um filme que derrubou sua carreira e cimentou sua persona ‘difícil’).
A garota normal tentando ser famosa que virou uma mulher famosa tentando ser normal
Quando abandona o relato “wikipedico”, o filme tem momentos bonitos, como os rápidos depoimentos de nomes como Sharon Stone, Annette Insdorf e Mark Harris, que dão a Faye o lugar no Olimpo que ela merece, com o reconhecimento à genialidade dela como atriz e a ponderação de que sua personalidade “difícil” não seria um problema tão grande se ela fosse um homem. O mesmo ocorre com a atriz que interpretou Christina em “Mamãezinha Querida” – em um depoimento emocionante, ela lamenta que o filme tenha se tornado algo ruim para Dunaway, porque ela adorou trabalhar com a estrela. As inserções com a protagonista do documentário também rendem momentos que podem até ser de uma improvisação forjada, mas que soam francos, sobretudo quando fala dos dilemas de ser mãe e ter uma carreira.
É uma pena que “Faye” se prenda a recursos tão tradicionais para abordar uma trajetória tão pouco ortodoxa. São mais de cinquenta anos de sobrevivência em uma indústria que, mesmo antes de se apropriar oficialmente da palavra “cancelamento”, sempre o fez com mulheres em uma frequência desigual em relação aos homens. Uma carreira que se explica bem mais com uma visita aos filmes que a compõem e com as imagens que imortalizaram essa persona do que com 1h30 de um documentário que não aproveita o material ao qual tem acesso.












