“Johatsu – Os Evaporados” começa com ares de thriller: um carro de tocaia numa rua escura; um sujeito desce do prédio e atravessa o quarteirão correndo, assustado; o sujeito entra no carro, que arranca em disparada enquanto o sujeito tenta se certificar de que não foi seguido.
Mas o filme não é um thriller e a motorista do carro não é personagem de ficção; ela é a dona de uma empresa real no Japão, responsável pelo que chama de “mudanças noturnas”. Em outras palavras, ela faz seus clientes desaparecerem.
“Desaparecer”? Como assim? Sumir do mapa, evaporar, como no título – fugir. Do que eles fogem? Os motivos são muitos. Alguns sentem vergonha dos erros que cometeram. Outros devem dinheiro. Alguns vinham sofrendo ameaças. Outros, claramente pessoas com transtornos mentais, pensam sofrer ameaças.
Para a empresária que atende a todos esses casos, o motivo não importa: negócios são negócios. É essa tapeçaria intrincada que o documentário “Johatsu – Os Evaporados”, dirigido por Arata Mori e Andreas Hartmann, busca retratar. E ainda nem falamos das famílias, que seguem buscando seus familiares desaparecidos através do serviço de investigadores privados.
Ou seja, o desaparecimento é um negócio, uma indústria movimentando diversos agentes em vários setores. É também o resultado de uma receita explosiva: um país com tradições rígidas sobre família e honra em consonância com uma lógica do valor pessoal através da produtividade a qualquer custo. Em outras palavras, é o resultado da hipertrofia do capitalismo. Em vez do seppuku, os japoneses do capitalismo tardio cometem essa espécie de suicídio simbólico.
Que o documentário consiga oferecer mais do que um simples vislumbre desse universo, conduzindo entrevistas com personagens de todas as esferas desse cenário, é atestado da qualidade de pesquisa dos realizadores. Também é curioso notar o modo como o tema em questão implica na forma que o filme precisa tomar: por estarmos falando de algumas pessoas que sumiram e não querem reaparecer, cenas inteiras transcorrem longe das câmeras. Vozes em off conversam enquanto assistimos quadros de ruas vazias, prédios residenciais, paisagens cotidianas. Essas pessoas desaparecem também do frame.
No fim das contas, “Johatsu – Os Evaporados” é o retrato triste dos efeitos devastadores do capitalismo e das mutações particulares que ele toma de cultura para cultura.












