“Will & Harper”, dirigido por Josh Greenbaum, é um documentário que combina elementos de road trip para explorar a profunda amizade entre Will Ferrell e Harper Steele. A narrativa acompanha a jornada dos dois comediantes, cuja relação foi consolidada durante os anos em que trabalharam juntos no Saturday Night Live (SNL). O filme aborda a história da amizade deles, destacando a descoberta de Harper como pessoa trans e como essa transição influencia a dinâmica entre ambos. Tudo isso durante uma viagem pelas estradas dos Estados Unidos onde a transfobia e o preconceito são comuns.
O filme traz uma mensagem poderosa, especialmente em um momento delicado para pessoas trans nos Estados Unidos. O país enfrenta uma onda de leis estaduais que dificultam a vida da comunidade trans, além de uma eleição presidencial marcada por discursos transfóbicos do republicano Donald Trump. Nesse contexto, “Will & Harper” acaba tentando assumir um papel de conscientização, mas sua abordagem é menos sobre a trajetória de Harper e mais sobre como Will Ferrell lida com a transição, destacando-o como um amigo solidário e receptivo.
Harper, que costumava atravessar os EUA de carro, agora sente insegurança e desproteção, especialmente nos estados mais conservadores. A ideia original era que, ao viajar novamente, agora acompanhada por Will, ela pudesse ter uma nova perspectiva desses lugares e ver se se sentia aceita. No entanto, a presença de Ferrell, junto com a equipe de gravação, chama muita atenção, o que tira parte da autenticidade da experiência. Embora isso não faça com que as pessoas escondam sua transfobia, cria uma situação irreal, especialmente em áreas mais conservadoras.
Além disso, Ferrell, com seu estilo característico de humor, muitas vezes tem dificuldade em levar as situações a sério, o que gera momentos desconfortáveis tanto para o público quanto para Harper. Em vários momentos, o documentário acaba se tornando mais sobre como Will é um bom amigo e apoia a transição de Harper, do que sobre inclusão e aceitação de pessoas trans na sociedade. Ainda assim, pode ter impacto positivo entre o público conservador, que talvez nunca tenha convivido com uma pessoa trans, e que parece ser o alvo do filme.
No que diz respeito à forma, sempre me incomoda como os documentários mais mainstream estão sendo feitos hoje em dia. Refiro-me aos que são lançados por grandes plataformas, como Netflix, outros serviços de streaming e televisão. Embora este vá além do típico conjunto de entrevistas intercaladas com narração, acrescentando o elemento de road trip, que promete algo mais inventivo, no fundo é apenas uma viagem gravada com conversas um tanto roteirizadas e interações pontuais com pessoas chave ao longo do trajeto.
O filme tenta criar uma estética natural, uma busca incansável por algo puro e real, tratando a relação entre os dois como uma simples conversa. Mas sabemos que não é assim. O fato de Will Ferrell ser um ator e comediante extremamente famoso traz um holofote sobre ele, algo que, como já mencionado, prejudica ainda mais a sensação de espontaneidade e naturalidade que o diretor tenta construir. A presença de Ferrell, por si só, já elimina parte dessa autenticidade que o documentário busca desesperadamente.
Por mais que as intenções por trás de “Will & Harper” fossem tornar o filme inclusivo e conscientizador, ele falha em capturar de forma profunda a realidade das pessoas trans nos Estados Unidos e no mundo. Além de seguir uma fórmula já desgastada de documentário, que tenta se passar por algo real e natural, o filme acaba reforçando a ideia de Will Ferrell como um “white savior” para pessoas trans. A história de Harper Steele, por si só, é emocionante – muitas pessoas trans passam a vida inteira esperando para transicionar, e essa jornada, em um país tão transfóbico, torna-se ainda mais difícil. Embora Harper não seja uma celebridade do nível de Ferrell, sua vida também carrega um certo grau de exposição pública, o que complica ainda mais o cenário. No entanto, nada disso é abordado de maneira profunda ou autêntica.
Tanto o diretor quanto o próprio Will Ferrell parecem usar essa complexa realidade apenas como pano de fundo, priorizando o foco na amizade dos dois e, consequentemente, em Ferrell como a “boa pessoa”. Harper, no entanto, tem muita história para contar, incluindo diários onde expressava seus sentimentos sobre a transição — é uma pena que o filme não tenha sido focado nela. Assim, perde-se a oportunidade de explorar questões mais amplas e relevantes sobre a vivência trans, optando por um retrato superficial e confortável que reforça estereótipos em vez de desafiá-los.














Achei interessante você abordar essa visão tão particular, mas me pergunto se mesmo que inconscientemente você não ignorou parte da agência da Harper nisso tudo. Veja bem, eu não a conhecia e pouco acompanho o Will, mas tive uma visão um tanto diferente da sua.
Não sei se white savior se encaixa nessa dinâmica, mesmo com as aspas, e olha que sou uma pessoa negra. Para mim, o Will assumiu a posição de alguém que estava ali sempre pronto para acalentar, suavizar e simplesmente acompanhar a amiga nessa jornada. Para além disso, representou um sem número de pessoas cis que são ignorantes sobre a vivência trans e estão buscando entender o lugar que essas pessoas marginalizadas ocupam no mundo a partir das experiências de uma pessoa amada. As falas mais “bobas” do Will ao mesmo tempo que suavizaram certos momentos deram espaço pra que o que há de mais característico na transexualidade fosse reconhecido. Em parte eram curtas aulas, então, natural também que certos diálogos fossem combinados.
A Harper foi, acredito eu, o foco como tinha que ser e desde o início, só que ainda assim como parte de uma dupla. A participação dos filhos, da irmã, além dos momentos só dela em ambientes atualmente estressantes, nos fizeram prestar atenção nela acima de tudo, ou pelo menos foi o que pensei.
Talvez seja mais fácil focar no Will por ser uma figura conhecida e ter uma postura sem tantos nuances, enquanto a Harper, principalmente depois da transição, requer um olhar mais atento.
Realmente enxerguei o Will como um complemento que não teria como ser diferente enquanto cis. O documentário foi fiel ao propósito: explorar a amizade entre ele e ela nessa nova realidade. Para mergulhar fundo na vida da Harper é realmente necessário que seja só sobre ela ou no mínimo uma série documental com um episódio dedicado a isso.