Nicole Kidman tem um orgasmo por cima de Antonio Banderas. Os dois se abraçam carinhosamente. Ele cai no sono, enquanto ela se esgueira para fora da cama, se tranca em outro cômodo e se masturba enquanto assiste um pornô gonzo de degradação feminina.
É uma abertura e tanto a que temos em “Babygirl”. Kidman é Romy, CEO de uma empresa de robótica. Ela é, como se pode imaginar, uma mulher durona e genial. Seu marido é o sensível — e, sexualmente falando, ultrapassado — Jacob, diretor teatral interpretado por Banderas. Temos então um verdadeiro casal de manda-chuvas.
O problema é que, por trás da felicidade conjugal e do sucesso financeiro, existe um poço de frustração. Romy nunca explorou o próprio desejo para além das salas escusas da pornografia. A coisa muda de figura com a chegada do estagiário Samuel (Harris Dickinson) à sua empresa. Metade insolente, metade abobado, capaz de ternura e de violência, Samuel percebe, talvez por um insight genial, talvez por pura estupidez, que Romy precisa é de uma boa lição.
Mas não estamos no mesmo mundo de “Secretária”. Afinal, é Romy quem ocupa a posição de poder na empresa. Ela tem o capital, a influência, sem falar na vantagem de algumas décadas de vida a mais que seu estagiário. Então, eis a primeira linha geral de “Babygirl”, implicada pelo consumo pornográfico de Romy, pela decisão de deixar o caso extraconjugal rolar, pela voracidade empreendedora: o capital contamina o desejo, torna-o mercantilizado. Esse é um ponto.
Mas o segundo ponto é que Romy é uma mulher, Samuel é um homem e logo os cenários fetichistas de dominação adquirem contornos de manipulação emocional. A essa altura, no entanto, Romy está completamente entregue ao jogo do rapaz, optando por manter aquela dinâmica viva mesmo quando todos os sinais lhe dizem para pular fora.
Os dois polos de poder se alternam, portanto, sem que a diretora Halina Reijn pese a balança de forma definitiva para nenhum dos lados. Verdade seja dita, “Babygirl” poderia ser visto como mais um dos filmes sobre mulheres glaciais que se deixam levar por jogos de entrega sexual (todos se viram para “A Professora de Piano” neste momento). A diferença é que Reijn consegue complicar as tramas do olhar e do poder de forma muito mais interessante que o miserabilismo de Michael Haneke jamais poderia. Ajuda também que o filme seja engraçado, adjetivo que não consta no vocabulário do austríaco.
Críticos frequentemente usam termos pomposos como “tour de force” para descrever o trabalho de atores nas temporadas de premiações. Mas nenhum outro termo parece apropriado para descrever o que faz Nicole Kidman aqui. É, de fato, não só uma demonstração de seu virtuosismo técnico, mas da vulnerabilidade dilacerante de sua personagem. Romy é predadora, vítima, mãe e filha, tudo ao mesmo tempo. Eu não tenho ideia de como Kidman consegue.
No final, a coisa pode ser resumida com a pergunta: o que é mais forte, a dominação capitalista ou a patriarcal? E podem as duas coisas serem separadas? Afinal, o sexo sempre aparece para complicar a equação. O resultado é um filme difícil de encarar: todas as neuroses, disputas e obsessões do nosso tempo são escancaradas na tela e sem distância segura.












