A pandemia da Covid-19 foi um momento dramático da história do Amazonas com centenas de mortes diárias, enterros em valas comuns e a crise do oxigênio nos hospitais. Daquelas tristes ironias do destino, o período também marcou uma das maiores conquistas do cinema do Estado: a vitória de “O Barco e o Rio” no Festival de Gramado 2020 com cinco Kikitos, incluindo, Melhor Filme do Júri Oficial e Popular. No ano seguinte, “Manaus Hot City” ganhou o prêmio de Melhor Curta-Metragem de Ficção no Mix Brasil, o mais importante evento de cinema LGBTQIAPN+ da América Latina.
Este momento particular para o cinema local é o tema central do projeto “Entrelugares: diálogos entre a História e o Audiovisual”. Aprovada no edital do Governo do Amazonas com recursos da Lei Paulo Gustavo, a iniciativa é conduzida por Adrian de Souza Santos, mestrando no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). O audiovisual, aliás, faz parte da trajetória acadêmica dele desde a graduação quando pesquisava sobre novelas.
O interesse em abordar o tema partiu de leituras sobre o assunto e da participação no curso de direção e roteiro ministrado por Bernardo Ale Abinader, justamente o diretor de “O Barco e o Rio”, em 2023. “Comecei a pensar na pesquisa sobre o audiovisual para além da análise fílmica, focando mais no trabalho dos produtores e realizadores”, disse Adrian em entrevista ao Cine Set.
A partir do método de História Oral, Adrian realizou cinco entrevistas com nomes importantes do atual cinema amazonense: Aline Fidélix (projeto Retomada), Bernardo Ale Abinader (“O Barco e o Rio”), Diego Bauer (“Obeso Mórbido”), Gabriel Bravo de Lima (“Na Dança que Cansa Voavas”) e Keila Sankofa (“Alexandrina – O Relâmpago”). Intitulada “Panorama do Cinema Amazonense no Contexto Pandêmico 2020-2023”, o artigo fruto da pesquisa foi apresentado no VII Encontro Estadual de História da Associação Nacional de História – Amazonas, em agosto do ano passado.
PODCAST

Apresentação de Adrian Santos no VII Encontro Estadual de História da Associação Nacional de História.
Agora, o projeto se expande para os podcasts: Adrian iniciou uma série de sete episódios com reflexões sobre a pesquisa e o próprio audiovisual amazonense. O material está disponibilizado no Spotify e no YouTube. O primeiro capítulo de apresentação da proposta já foi aberto ao público.
O segundo episódio terá um bate-papo com Veridiana Tonelli, advogada e historiadora com grande ligação com o setor cultural do Amazonas, especialmente, nas políticas públicas. Por meio de uma análise cuidadosa, baseada em entrevistas com profissionais do setor, revisão bibliográfica e contextualização histórica, o Entrelugares desmistifica a centralização da produção audiovisual no eixo Rio-São Paulo e evidencia a potência criativa da Amazônia.
“A pesquisa e o podcast deixam clara a capacidade de reinvenção e a criatividade do cinema amazonense, especialmente, do ponto de vista de se adaptar para o meio digital. Evidente que a grande exposição obtida pelos filmes locais durante a pandemia se deve ao investimento feito anteriormente através de políticas públicas. No período da Covid-19, os editais foram fundamentais para que a cena artística não paralisasse totalmente”, declarou Adrian.
Adrian ressalta que teve como referência trabalhos realizados em âmbito universitário por pesquisadores como Gustavo Soranz, Walter Fernandes Jr, Gabriel Bravo de Lima, Rafael de Figueiredo Lopes e a própria Veridiana Tonelli. “A pesquisa acadêmica é importante para embasar as próximas políticas culturais, reivindicar direitos culturais, pois, oferece um panorama do que acontecia e acontece. Há bons trabalhos na UFAM para produzir conhecimento e fomentar as próximas lutas por direitos culturais”, completou.










