Vamos começar pelas coisas boas: o público compareceu em peso à pracinha central de Tiradentes, onde um grandioso telão foi içado diante de cadeiras de plástico enfileiradas. E isso a despeito de uma garoa chata, que ainda insistia em cair nos momentos iniciais da projeção.
Esse Cine-praça é interessante porque, se você se sentar perto da tela, de onde é preciso levantar a cabeça para assistir ao filme, acaba incluindo um farto pedaço do céu no seu campo de visão. O que dá a impressão de que as imagens estão sendo projetadas nas próprias estrelas.
Isso tudo é muito bonito. Já o filme são outros quinhentos. Malês foi dirigido pelo lendário Antônio Pitanga, que trabalhou com outros tantos nomes lendários do cinema brasileiro. De modo que a gente fica a se perguntar como um sujeito com esse gabarito pode fazer um filme tão terrivelmente convencional.
É a impressão que fica, por exemplo, durante as cenas iniciais, quando Malês pula de década em década, de continente em continente, no que parecem ser tropeços e engasgos de quem não sabe muito bem por onde começar sua história. Estranho também que o personagem de Pitanga, Pacífico, apresente a si mesmo falando diretamente para a câmera, coisa que nenhum outro personagem faz. Até porque Pacífico está longe de ser o protagonista do filme.
Antes, Pitanga opta por construir uma espécie de tapeçaria com os personagens envolvidos na Revolta dos Malês, de 1835 — a maior revolta de escravizados de nossa história. Os Malês eram africanos muçulmanos que, por saberem ler e escrever, acabavam formando fortes articulações políticas entre si. Pacífico é o líder do grupo, mas ele logo sai de cena ao ser preso pelas autoridades, e o filme passa a enfocar outros personagens.
Ficamos conhecendo as tensões entre esses escravizados muçulmanos e os não-muçulmanos. É aí que entra Sabina, interpretada por Camila Pitanga. Sua família conquistou a alforria a duras penas. Agora, Sabina vê seu marido se engraçando com as ideias políticas dos Malês, o que, naturalmente, a preocupa. É com a personagem de Sabina que o longa enfrenta as maiores dificuldades, porque o ponto de Pitanga (o pai, não a filha) soa vago e tolo.
Exemplo: a sequência logo no início da projeção, que alterna entre o frenesi do terreiro, onde Sabina participa de uma celebração a Xangô, e a gravidade sóbria e esclarecida dos muçulmanos, aplicando lições de escrita baseadas no Alcorão. Dado o enfoque narrativo do longa, predominantemente voltado aos adeptos do Islã, com os quais devemos nos identificar em sua luta por justiça e liberdade, a justaposição parece estranha. Ficamos com a impressão de que, por algum motivo, Pitanga está colocando uma hierarquia entre as duas vivências religiosas, o que eu quero acreditar não ser sua intenção.
A coisa piora ainda mais quando a pobre Sabina, na noite da fatídica revolta, acaba servindo de delatora dos revoltosos numa tentativa desesperada de salvar seu marido. É uma maquinação infeliz do roteiro que, em alguma medida, coloca a personagem antagonizando os interesses dos heróis — mais infeliz ainda porque, dito e feito, seu marido acaba sendo atingido por uma bala da polícia. É quase como se o filme a punisse, e o motivo disso se encontrasse naquele terreiro.
Certamente, pelo que se vê antes (como quando vemos um líder Malês construindo uma aliança com uma mãe-de-santo), não é a impressão que Pitanga desejava passar com seu filme. É, no entanto, o que acontece em tela. Quando não está trocando os pés pelas mãos, o diretor se contenta em dar ao longa a cara de uma novela histórica da Globo, daquelas mais pasteurizadas. Não há nada que nos embale, empolgue ou emocione; nenhuma imagem ou som que nos faça vibrar ou que nos tire mais do que os aplausos comedidos e protocolares que devem ser endereçados a um filme sério, sobre um tema sério.
Por que Pitanga escolheu contar essa história da forma menos interessante de todas? Se há algum interesse aqui, é pelos fatos históricos em si, pela diversidade de povos e de interesses entre os escravizados, pelas suas próprias articulações. Mas, se a partir de tudo isso Pitanga optou por fazer um filme como este, então talvez fosse melhor nem ter pegado na câmera, para começar de conversa.












