Se tem algo que tem faltado à produção audiovisual nacional, é explorar melhor a mitologia que existe por trás de algumas personalidades controversas da história brasileira. Hollywood, Bollywood e até mesmo o cinema coreano vêm se apropriando disso na construção de seus heróis e vilões, tanto em filmes quanto em séries — mesmo que apenas para adicionar uma carga de entretenimento a essas jornadas pessoais.
Maria e o Cangaço, nova minissérie brasileira do Disney+, surge como resposta para dar forma, conteúdo e contexto a esse segmento. E nada melhor do que resgatar duas figuras cinematográficas como Lampião e Maria Bonita — o casal fora-da-lei que marcou o cangaço no Nordeste durante a primeira metade do século XX, praticando atos de violência extrema, mas também dando voz à população marginalizada frente ao Estado autoritário do governo Getúlio Vargas.
Fazendo um recorte do casal já estabelecido no imaginário popular e declarado inimigo público, a minissérie, ao longo de seis episódios, acompanha a vida dos dois enfrentando os volantes liderados por Silvério Batista (Rômulo Braga), enquanto Maria (Isis Valverde) lida com os conflitos pessoais de ser uma mulher em meio à brutalidade masculina.
O apelo mitológico a serviço de um entretenimento visual de qualidade
O maior mérito do diretor e roteirista Sérgio Machado (Cidade Baixa, Rio do Desejo), com co-direção de Thalita Rubio e Adrian Teijido (também responsável pela fotografia), está em representar Lampião e Maria Bonita longe da visão documental tradicional.
A série já avisa nos créditos ser “levemente inspirada” no livro Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço, de Adriana Negreiros. Assim, é importante, antes de tudo, separar a ficção da história real que se aprende nos livros ou nos documentários.
O cinema americano já fez isso inúmeras vezes nos faroestes, romantizando figuras historicamente violentas. Sob essa lente, Maria e o Cangaço revela-se um entretenimento visual competente, lindamente ambientado com a fotografia exótica e expressiva de Teijido (Ainda Estou Aqui), que utiliza as vastas paisagens do sertão nordestino para criar uma atmosfera de opressão, dureza e masculinidade tóxica.
A direção também se destaca nas sequências de ação, com cenas bem coreografadas e uma narrativa ágil nos tiroteios — o melhor deles já no episódio de estreia. Visual e narrativamente, a minissérie entrega um espetáculo com forte apelo cinematográfico.
Outro acerto está na forma objetiva como introduz a geografia, os códigos e os vocabulários do sertão e do grupo liderado por Lampião. O foco no olhar feminino sobre o cangaço retrata bem a misoginia dos anos 1930 e permite traçar paralelos com a violência que ainda marca a realidade de muitas mulheres brasileiras hoje. A violência masculina, o estupro e o feminicídio enfrentados por Maria e outras mulheres do bando ainda ecoam em nossos tempos.
Narrativa acelerada prejudica o envolvimento emocional
Por outro lado, o ritmo acelerado dos episódios — todos com menos de 40 minutos — compromete o desenvolvimento emocional da trama e dos personagens. A série cobre cerca de oito anos da trajetória do casal, mas muitas vezes dedica apenas 15 ou 20 minutos para encerrar arcos dramáticos, o que compromete o impacto.
A cronologia se torna confusa e os conflitos principais, como o amor entre Maria e Lampião ou o dilema com a filha, são tratados de forma superficial. Apesar do esforço dos atores principais, o relacionamento do casal carece de camadas, e a jornada emocional de Maria se prende a clichês dramáticos, com idas e vindas que soam repetitivas.
A minissérie também falha ao tratar superficialmente a complexa relação entre violência e injustiça social. O comportamento contraditório de Lampião até ganha um bom contorno no quarto episódio (o mais interessante), mas é rapidamente deixado de lado nos episódios seguintes.
Personagens coadjuvantes como Dadá (Mohana Uchôa) e Corisco (Jorge Paz) são subaproveitados. Já o triângulo amoroso entre Lourdes (Thaína Duarte), Zé Bispo (Geyson Luiz) e Cúrio (Dan Ferreira) cai num melodrama raso digno de novela ruim. O antagonista Silvério, por sua vez, é uma caricatura vilanesca que lembra personagens genéricos de blockbusters da Marvel ou DC.
Isis Valverde se impõe como protagonista absoluta
Apesar das falhas, Isis Valverde entrega uma performance impressionante. Ela se despe da vaidade para encarnar uma Maria forte, vulnerável e intensa. Sua atuação transita com naturalidade entre fragilidade e dureza, elevando a personagem e a série. Julio Andrade, mesmo com menos destaque, constrói um Lampião contraditório, carismático e brutal. Juntos, a química dos dois é o maior trunfo da produção.
Maria e o Cangaço se destaca por sua estética apurada e pela força do elenco principal. Embora não aprofunde com rigor as questões históricas e sociais, cumpre com competência a proposta de entreter e mitologizar figuras icônicas da cultura brasileira. Dentro dessa proposta ficcional e estilizada, o público consegue entender o quanto Maria Bonita e Lampião viveram no limite — e por isso mesmo se tornaram lendas do nosso imaginário popular.















