Dia 14 de maio de 2025 será lembrado na história do cinema amazonense pelo lançamento do curta-metragem “Como Ler o Vento” do cineasta manauara, Bernardo Abinader, no Festival de Cannes de 2025. O trabalho, codirigido com a francesa Sharon Hakim, foi apresentado por meio do projeto Directors’ Factory Ceará-Brasil que faz parte da Quinzena dos Realizadores e traz como objetivo captar novos talentos no cenário cinematográfico internacional. A iniciativa conta com o “apadrinhamento” do diretor Karim Ainouz, de “Motel Destino”, além da parceria com Governo do Ceará.
Durante a atividade, foram apresentados quatro curtas, todos filmados na cidade de Fortaleza: “Ponto Cego”, de Luciana Vieira e Marcel Beltrán, “A Vaqueira, a Dançarina e o Porco”, de Stella Carneiro e Ary Zara, “Como Ler o Vento”, de Bernardo e Sharon e “A Fera do Mangue”, de Wara e Sivan Noam Shimon. Todos trazem um forte olhar feminino de protagonismo para as questões sociais, principalmente em lidar com a violência masculina, indicando como ideia central da proposta, a resiliência frente a opressão e que é muito bem-vinda no roteiro do projeto.
Rodado na região de Sabiaguaba, em Fortaleza, no Ceará, o curta de Bernardo traz a história de Cássia (Esther de Paula), uma curandeira tradicional que se encontra adoecida e que ensina os seus segredos a Marjorie (Isabela Catão) com o intuito que ela assuma o legado. Dos quatro curtas, “Como Ler o Vento” é aquele que foca exclusivamente na representatividade feminina, para trabalhá-la a partir da reconexão feminina com o passado, no caso a vivência das curandeiras e das construções das narrativas que elas possuem na prática da cura.
E, pessoalmente, considero bem feliz a maneira que Bernardo e Sharon trabalham o peso do legado da curandeira na figura de Marjorie para discutir a ancestralidade passada entre gerações familiares, levando uma boa reflexão sobre os elos que conectam a juventude atual com o seu passado e de que forma isso interfere no futuro.
Isso se torna ainda mais interessante quando “Como Ler o Vento” utiliza essa reflexão dentro de um contexto distópico representado por um Ceará futurista, de cenário e elementos exóticos – nele, temos duas curandeiras retirando plásticos, pedaços de sacolas, entre outros objetos, da pele e do estômago de pessoas enfermas – que remetem aos trabalhos de David Cronenberg e seu recente “Crimes do Futuro”.
Por sinal, o curta no seu primeiro segmento é bem feliz em explorar a conexão entre duas mulheres ao mostrar que os elementos espirituais que regem duas gerações diferentes, trazem, além dos contrapontos de valores e necessidades, a importância do ambiente (a natureza) representado pelo vento que une a relação espiritual entre elas, bem como ressaltam a natureza ancestral.
A cena de Isabela Catão capturando o vento é o ápice poético dessa ideia apresentada por Bernardo e Sharon. Vale ressaltar, que apesar da boa participação de Esther de Paula, é Isabela o coração do filme, carregando grande parte dele principalmente nos aspectos dramáticos exigidos pelo texto.
Uma pena que “Como Ler o Vento” tenha um segundo segmento um tanto formal e que não consegue aprofundar e até mesmo concluir os elementos fantásticos da sua composição.
De certa forma, um curta sensível em focar nesta vivência espiritual do feminino, mas que não consegue se libertar dentro da sua dramaticidade, de um caminho previsível e pouco ambicioso frente a sua temática mística.












