O lançamento de “O Riso e a Faca” em Cannes foi uma das sessões mais descontraídas do festival, o que já facilitou a embarcar na maratona de 3h30 do filme.

Coproduzido com o Brasil, o segundo filme do diretor português Pedro Pinho está na mostra Um Certo Olhar e conta a história de Sérgio (Sérgio Coragem), um engenheiro ambiental que viaja para Guiné-Bissau, a fim de trabalhar numa ONG na construção de uma estrada que vai fazer a ligação entre o deserto e a selva do país. Durante a sua estadia no país, ele se vê numa relação afetiva com Diara (Cléo Diára) e Gui (o brasileiro Jonathan Guilherme), situação que vai provocar diversas mudanças em sua vida.

O grande acerto de Pinho é construir o estudo de personagem de Sérgio, a partir das suas fragilidades em lidar com a solidão e insegurança pessoal perante as questões políticas sociais encontradas na África.

Ao mostrar o clima de tensão oriundo das dinâmicas neocoloniais, o cineasta trabalha o sentimento de desconexão e desintegração do protagonista frente aos propósitos, a identidade e as necessidades no espaço íntimo das suas relações. É uma confrontação muito interessante que o trabalho faz entre os desejos de Sérgio os contrapondo com o poder que o colonialismo exerce no continente africano.

“O Riso e a Faca” não segue um arco linear tradicional, optando por uma estrutura narrativa desfragmentada que condiz com o emocional não apenas de Sérgio como também do próprio cenário, que em nenhum momento se mostra aberto a ser compreendido devido as divisões culturais e que vão da burocracia governamental até os monopólios institucionais que se escondem através das fachadas das Ongs.

Pedro mantém a áurea do cinema português com um filme longo de três horas e meia, que se revela uma experiencia complexa e não tão fácil de digerir, mas que tem grande parte da sua força nos relacionamentos entre Sergio, Cleo e Gui, cuja dinâmica ajuda a aprofundar os desafios emocionais exigidos pelo roteiro, muitos deles desencadeados nas ações sentimentais ambíguas que fazem parte da relação entre Cleo e Sergio.

O filme nunca se inclina para o melodrama sentimental. Em vez disso, mostra como os relacionamentos são genuínos, confusos e moldados pelo poder tanto nas interações quanto nas decisões dos personagens. A própria câmera segue essa organicidade e inquietação austera, invadindo espaços íntimos como nas cenas sexuais e filmando o caos social de Guiné-Bissau  por meio de enquadramentos desconfortáveis.

Uma pena Pedro perder um pouco de fôlego na parte final, quando a parte política da obra é praticamente deixada de lado, deixado o ritmo oscilante.

Acaba que “O Riso e a Faca” é uma experiência que se recusa a se simplificar, ou de se generalizar no seu discurso. Em vez disso, investiga as inquietações dos personagens e suas interseções entre o mundo globalizado selvagem, a alienação pessoal e o deslocamento cultural a partir de um olhar preciso de quando instituições colidem com indivíduos e os desejos desmoronam sob o peso do contexto. É o retrato da inaptidão disfarçada de progresso e de pessoas a viver em espaços de tensão entre intenção e realidade.

Autor

  • Danilo Areosa

    Psicológo nas horas formais e cinéfilo compulsivo nas informais. É amante, colecionador e apreciador tanto do Cinema de Arte quanto dos Filmes B e de Horror. Ama Martin Scorsese, François Truffaut, Michael Mann e Alfred Hitchcock da mesma maneira que idolatra “Outsiders” como John Carpenter, George Romero, Dario Argento e Lucio Fulci. Afinal, como dito pelo genial Orson Welles: O Cinema não tem fronteiras, nem limites. É fluxo constante de sonhos.

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