Apesar de não ser o meu filme favorito da mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes deste ano, é fácil entender os motivos que levaram o drama chileno “La Misteriosa Mirada del Flamenco”, a ganhar o principal prêmio da competição: é uma estreia ousada e delicada por parte do diretor chileno Diego Céspede e, que traz, nas entrelinhas do seu texto, um olhar contundente sobre o preconceito social sofrido pelas pessoas trans.

E nesta edição do evento, o cineasta conseguiu superar uma concorrência bastante forte que contou com as estreias promissoras de estrelas hollywoodianas na direção como Scarlett Johansson (“Eleanor, The Great”), Harris Dickinson (“Urchin”) e Kristen Stewart (“The Chronology of Water”).

“La Misteriosa Mirada del Flamenco” conta a trajetória da jovem Lidia (a ótima Tamara Cortés) de 11 anos que vive numa cidade mineira localizada no deserto ao norte do Chile no início dos anos 80. Após ser abandonada pela família, a garota é acolhida por Mamá Boa (Paula Dinamarca), dona de um bordel de travestis que tem o grande destaque na figura estrelar de La Flamenco (Matías Catalán). Quase como uma mãe para Lídia, as duas irão enfrentar o preconceito e a intolerância masculina da cidade.

Em “La Misteriosa Mirada del Flamenco”, Céspede traz para a perspectiva central da história a questão da transfobia em relação a comunidade transgênero no Chile dos anos 80, explorando a crise da AIDS que surgiu neste período, cuja enfermidade era atrelada unicamente a este público, uma visão distorcida que continua a até hoje na nossa sociedade.

É interessante a maneira com que o filme consegue misturar esta visão crítica sobre a marginalização social sofrida pelo público LGBTQIAP+ ao mesmo tempo que trabalha o chamado coming of age de Lídia por meio da ternura e das nuances afetivas geradas pela união da família comandada por Mamá Boa.

De certa forma, é uma obra que transborda amor, alegria e esperança no combate a um cenário masculinizado que produz raiva e angústia. Céspede articula bem os primeiros anos da epidemia da AIDS para retratar a histeria em torno da doença, utilizando o ritual de passagem de Lídia (no caso da menina para mulher) em lidar com as intersecções destas vivências, a partir do amor e da idealização que ela sente por Flamenco.

O próprio visual de “La Misteriosa Mirada del Flamenco” remete ao colorido dos filmes de Almodóvar (produtor do longa) nas cenas do bordel, ao mesmo tempo que narrativamente, segue o melodrama familiar e das relações afetuosas característicos da filmografia do cineasta espanhol, principalmente nos exageros amorosos, ainda que Céspede insira um tom mais dolorosamente amargo para mostrar a violência masculina censurando as reivindicações de Flamenco e suas garotas.

O elenco por si só tem atuações cativantes, sendo que a relação de Matías Catalán e Tamara Cortès é o ponto forte do trabalho, com várias cenas ganhando dramaticidade quando as duas estão juntas.

Uma pena que o ritmo irregular e certas passagens forçadas devido aos diálogos expositivos e até mesmo redundantes no arco final, impedem o filme de ser mais relevante dentro da sua proposta.

É claro que “La Misteriosa Mirada del Flamenco” com sua fluidez e leveza em trabalhar o poético das transformações emocionais de Lídia na sua experiência pessoal alinhado à potência em que retrata o machismo e o preconceito produzindo a violência em uma cidade pequena e fechada onde o filme se passa em relação a comunidade trans, são elementos fundamentais para capturar a atenção do público e dar a relevância merecida ao trabalho de Céspede.