PARA LER OUVINDO:
Volta e meia falo aqui em minhas críticas a importância da memória, sem ela o que seríamos? É uma parte fundamental da história da humanidade e diz também muito sobre nós mesmos enquanto sociedade e na busca pela identidade perdida por conta dos processos colonizadores e opressivos do poder dominante.
Pois bem, vivemos em um país orgulhosamente desmemoriado. Melhor dizendo, o mesmo poder dominante insere essa ideia nas nossas mentes, através de seu olhar embranquecido, eurocêntrico e etnocêntrico. Esse mesmo olhar imposto pelo poder e que insere memórias deturpadas nos leva à caminhos perigosos como estamos vivendo atualmente com os domínios da extrema direita e o seu completo desserviço social, político, econômico e cultural.
Para início de conversa, houve sim ditadura no Brasil, um período nefasto que se prolongou por 21 anos. Enquanto a extrema direita e seus seguidores políticos insistem em dizer que não e ovacionam nomes de ditadores e assassinos, a história se faz ainda presente. Portanto, essa ferida aguda finalizada em 1985 ainda está inflamada, logo, é preciso sempre lembrar não somente para não cair no esquecimento, mas que as novas gerações – inclusive as antigas – não caiam nessa falsa simetria.
E é disso que Vera Egito fala em “A Batalha da Rua Maria Antônia”, naquele fatídico dia que se alastrou madrugada adentro de 2 de outubro de 1968 em um embate entre alunos e professores do curso de Filosofia da USP e alunos (com agentes da ditadura infiltrados) da Mackenzie que se auto intitulavam CCC (Comando de Caça aos Comunistas), cafonas até no nome.
O filme começa bem, mas se arrasta por um enredo que tem muito a dizer, mas que parece não saber para onde focar. E isso fica claro não somente na construção falha de uma protagonista tímida e apática aos acontecimentos que a cercam, a branca alienada que se torna salvadora, diálogos pouco inspirados e o pior de todos os erros nesse contexto: a inserção de drama novelesco, romance, culpa e sexo que não se encaixam. Como já dito, o roteiro se perde e o dramalhão aqui de nada serve para contar a história senão preencher um filme fraco e com bastante potencial em seu pouco mais de 80 minutos.
Em termos técnicos, o filme de Egito se salva bastante, principalmente nos planos sequência, a fotografia em preto e branco granulada nessa analogia de um período sem cor e a ambientação fechada e com o auxílio de alguns planos fechados para dar a sensação de angústia. Uma pena que ele se torne cansativo e cenas como no plano sequência ao som de “Roda Viva” soem mais performáticas do que necessárias em sua narrativa.
Apesar do bom elenco, eles não tem muito o que fazer, entregando atuações um tanto mecânicas e isso não é culpa dos atores. Uma curiosidade é que há uma ponta afetiva de Valentina Herszage, um dos grandes nomes da nova geração e que tem escolhido bons papéis no cinema, sendo três deles nessa ambientação da ditadura como em “O Mensageiro” e “Ainda Estou Aqui”, ambos de 2024.
Mesmo que a intenção de Vera Egito seja lembrar para nunca mais esquecer e não voltarmos a esse estado de sítio (e aí é uma questão subjetiva, quais corpos que ainda tem o luxo de ir e vir?), que esse 2 de outubro de 1968 seja importante na questão da resistência e o poder da juventude em prol da democracia, não há como não pensar que o filme seria melhor se fosse um documentário, inclusive há esse flerte documentário-ficção. O melhor momento de “A Batalha da Rua Maria Antônia”, o grande vencedor do Festival do Rio 2023 (?) é quando ele acaba e vemos fotos desse longo dia que parece estar longe do fim.













