Caio Pimenta analisa quem sai fortalecido e enfraquecido do Festival de Veneza 2025 rumo ao Oscar 2026.
EM BAIXA
Antes de falar de quem se deu bem, começo destacando aquela turma que não pode comemorar a passagem em Veneza.
“Jay Kelly” era uma das apostas da Netflix para o festival italiano com toda força do diretor Noah Baumbach e, principalmente, dos astros Adam Sandler e George Clooney. Apesar de não ser considerado um fracasso, a expectativa era que saíssem mais aclamado do que realmente aconteceu. A recepção moderada sem grande entusiasmo faz com que a dramédia precise correr atrás nos festivais da América do Norte para conseguir se reposicionar melhor rumo ao Oscar.
A passagem em Telluride mais empolgada mostrou como “Jay Kelly” pode recuperar terreno junto ao mercado norte-americano.
A expectativa por “The Wizard of Kremlim”, novo filme do Olivier Assayas, estava concentrada em ver Jude Law como Vladimir Putin. O britânico realmente manda bem, porém, o drama passou longe de ser abraçado pela crítica internacional, sendo considerado uma minissérie condensada em um filme com uma trama que não consegue engajar com o espectador.
“No Other Choice” é um caso curioso: a comédia irônica com toques de suspense do Park Chan-Wook conquistou a crítica e o público no Festival de Veneza. Era considerado um dos favoritos à Palma de Ouro, porém, o júri presidido pelo Alexander Payne ignorou o longa sul-coreano totalmente.
Esta decepção deixa um temor grande de que “No Other Choice” repita a mesma trajetória dos longas do Chan-Wook, especialmente, “Decisão de Partir” que sempre foram muito cotados para chegarem ao Oscar, mas, que na hora H, ficavam pelo caminho. A situação é ainda mais complicada nesta temporada pelo fato da Neon ter uma longa lista de candidatos brigando pelas mesmas vagas de Filme Internacional e um espacinho nas demais categorias.
Uma vitória em Veneza seria uma grande credencial em uma corrida tão equilibrada. Claro que pode se recuperar, há tempo para isso, mas, a falta de prêmios na Itália não ajudou em nada.
NEM SUBIU NEM DESCEU
A partir de agora, vamos falar da turma que não saiu do lugar em Veneza.
“House of Dynamite”, “Bugonia” e “Frankenstein” fazem parte deste grupo.
O thriller de Kathryn Bigelow recebeu intensos elogios da crítica internacional, apontando como o melhor trabalho da diretora desde “Guerra ao Terror”.
Já o novo filme de Yorgos Lanthimos também foi bastante exaltado com destaque para a Emma Stone forte novamente para Melhor Atriz.
Por fim, Guillermo del Toro recebeu uma das maiores aclamações do festival com 15 minutos empolgados de aplausos, sendo colocado como uma das grandes apostas para a temporada de premiações.
Apesar do trio sair sem nenhum prêmio do júri oficial, a mensagem de que são grandes filmes já havia sido passada. Chegarão nos festivais da América do Norte forte para conquistar também o público de Hollywood.
“The Testament of Ann Lee” foi outro que ficou de mãos vazias em Veneza.
O musical da Mona Fastvold não obteve o mesmo consenso da Bigelow, Del Toro e Lanthimos, mas, também não dá para dizer que saiu mal-visto.
Ficou no meio do caminho, mas, deixando a Amanda Seyfried em uma boa posição na corrida por uma das cinco vagas de Melhor Atriz, justamente a principal missão do longa na temporada.
EM ALTA
Chegamos aos quatro filmes que saíram grandes do Festival de Veneza mirando o Oscar 2026.
“Coração de Lutador” poderia ficar na turma daqueles que não saíram do lugar até o dia da premiação. Não chegou a ser amado pelos críticos, mas, conseguiu obter os esperados elogios para Emily Blunt e, claro, Dwayne Johnson, o colocando forte na corrida de Melhor Ator. A conquista de Benny Safdie em Melhor Direção acabou sendo uma surpresa, dando impulso ao longa da A24 mirando Melhor Filme no Oscar.
Vale lembrar que Jane Campion com “Ataque dos Cães” e Brady Corbet com “O Brutalista” ganharam o mesmo prêmio em edições anteriores recentes do Festival de Cannes. Logo, bom colocar o Benny Safdie no radar da Academia.
Paolo Sorrentino se colocou na dianteira para novamente ser o representante italiano com “La Grazia”. A crítica apontou o filme como um dos melhores da carreira do diretor. A vitória de Toni Servillo em Melhor Ator, uma conquista que o talentoso intérprete buscava há tempos no festival, mostrou como o longa agradou em cheio.
Apesar da concorrência de “Duse”, do Pietro Marcello, a tendência é que “La Grazia” seja escolhido pela Itália. O longa já conta com distribuição da MUBI nos EUA e deve brigar por uma das últimas vagas em Melhor Filme Internacional. Mais do que isso, me parece bem distante.
O Jim Jarmusch conquistou o maior prêmio da carreira com o Leão de Ouro de “Father Mother Sister Brother”. De todos os filmes dos EUA na disputa principal, este foi o que chegou com menos pompa, logo, a vitória em Veneza coloca uma visibilidade importante ao filme da MUBI.
Falando na distribuidora, “Father Mother Sister Brother” toma definitivamente a dianteira de “Die My Love” na preferência da MUBI. Ainda assim, considero o longa do Jim Jarmusch mais para “O Quarto ao Lado” do que “Nomadland”, “Coringa”, “Roma” e “A Forma da Água”, logo, acho que as chances são mais de ficar fora da lista final do Oscar.
Candidato da Tunísia na temporada de premiações, “The Voice of Hind Rajab” foi o filme que saiu mais forte da Itália. O drama da Kaouther Ben Hania teve a maior aclamação do festival com 23 minutos consecutivos de aplausos, além de praticamente ter sido unânime perante a crítica. A história real da garota de seis morta ao lado da família por tropas israelenses na Faixa de Gaza foi considerada injustiçada na cerimônia de premiação a ponto de um boato de briga no júri – não confirmado – rolar nas redes sociais.
“The Voice of Hind Rajab” seria um candidato natural ao Oscar por conta da impressionante equipe de produtores que conta com Brad Pitt, Joaquin Phoenix, Rooney Mara, Alfonso Cuarón e Jonathan Glazer. A indicação a Melhor Filme Internacional parece bastante encaminhada, o que leva a pensar nas principais categorias como Melhor Filme, Direção e Roteiro Original.
A grande questão é a polêmica sobre a guerra na Faixa de Gaza. De um lado, há os defensores históricos de Israel dentro da indústria do cinema, enquanto do outro há aqueles que denunciam a barbárie ocorrida contra os palestinos. Um assunto que divide o planeta, os EUA e, certamente, ocorrerá no Oscar. A maneira como a Academia irá lidar com este dilema a partir de “The Voice of Hind Rajab”, pressionada com uma presidência truculenta de Donald Trump em todos os assuntos nos EUA, será um dos grandes assuntos da temporada.



















