Um dos talentos do cinema americano surgidos nos anos 1990, o californiano Paul Thomas Anderson é um iconoclasta: filho de um apresentador de TV, começou a fazer curtas ainda na adolescência e depois abandonou a faculdade de cinema, poucos dias depois de se inscrever, por estar insatisfeito com o que a escola ensinava. Um dos seus curtas lhe garantiu uma inscrição no laboratório de projetos em Sundance, e aí sua carreira começou.

PTA, como ficou conhecido, sempre fez as coisas do seu jeito e, embora seus filmes nunca tenham virado grandes sucessos comerciais, ele aos poucos se consolidou como um dos melhores cineastas da atualidade. É uma voz diferente e autoral, e acima de tudo, até agora não errou: Seus 10 filmes são marcantes, comoventes, engraçados e mesmo o menor deles ainda é muito bom. Por isso, fazer um ranking dele é uma experiência interessante. Então, sem mais delongas, aí vai o meu ranking do PTA.

10º. lugar: Vício Inerente (2014)

crítica Vício Inerente Paul Thomas Anderson Joaquin Phoenix

A adaptação do diretor para o livro de outro iconoclasta, o autor Thomas Pynchon, traz Joaquin Phoenix como um detetive atrapalhado e maconheiro investigando um caso maluco na Califórnia dos anos 1970. É o filme do diretor que mais se aproxima de uma comédia de verdade, mas apesar das ótimas atuações – além de Phoenix, Josh Brolin e Katherine Waterston também estão fantásticos – a história se dispersa e o ritmo do filme cai do meio para o final. Ainda assim, tem cenas engraçadíssimas e reconstitui com habilidade a época da contracultura nos Estados Unidos.

9º. lugar: Licorice Pizza (2021)

Outra reconstituição de época, agora do Vale de San Fernando onde o cineasta cresceu, Licorice Pizza é uma comédia romântica com uma protagonista nada romântica – vivida por Alana Haim – sendo cortejada pelo seu jovem pretendente, Cooper Hoffman, filho do saudoso Philip Seymour Hoffman. Amor jovem e situações e personagens bizarros dão o tom deste filme delicioso, que revelou estes jovens talentos e traz o diretor querendo se divertir, reconstruindo um pedaço da sua própria vida e juventude.

8º. lugar: Jogada de Risco (1995)

O filme de estreia de Paul Thomas Anderson já traz indícios de que grandes coisas viriam: Um grande olho para escalar atores e tirar deles ótimas atuações, e um foco em uma história entre pais e filhos. No filme, o gângster Sydney – vivido pelo ótimo Philip Baker Hall, num papel que PTA escreveu especialmente para o ator – “adota” um rapaz sem eira nem beira interpretado por John C. Reilly, e o ajuda a viver pelo submundo de Las Vegas, para depois ter que salvá-lo de uma enrascada. Apesar da embalagem de filme de gangster, é o lado emocional da história e da relação entre esses desconhecidos transformados em família que conquista o espectador. Este aqui merece ser mais conhecido.

7º. lugar: Embriagado de Amor (2002)

Imagine o espanto no começo dos anos 2000 quando, depois de ser indicado ao Oscar, PTA anunciou que ia fazer um filme com Adam Sandler… Bem, o ator está fantástico no papel de um homem que começa a se libertar da sua vida opressiva ao se apaixonar por uma misteriosa mulher, vivida por Emily Watson. Um pouco mais abstrato e experimental do que Licorice Pizza, Embriagado de Amor, no entanto, ainda deixa o espectador – claro, quem embarcar na proposta – com um grande sorriso no rosto. Uma vez o diretor disse que este filme é sobre a loucura que acomete uma pessoa quando ela se apaixona, e loucura aqui é a palavra-chave: o amor não é tão bonitinho como na maioria dos filmes, tem mesmo um toque de bizarrice…

6º. lugar: Trama Fantasma (2017)

Este aqui é diferente: sai de cena o PTA de filmes e personagens excêntricos e entra em cena o PTA clássico, quase “kubrickiano”, num filme que homenageia o cinema britânico dos anos 1940 e 1950. Mas também é um filme de relacionamento: Daniel Day-Lewis dá vida a um pequeno monstro no papel do estilista genial e mimado, que encontra alguém à sua altura na jovem interpretada pela revelação Vicky Krieps. De certa forma, talvez seja o mais romântico trabalho do diretor, ao mostrar que toda panela, por mais torta que seja, pode encontrar sua tampa. E aquela trilha sonora do Jonny Greenwood… Para mim, um filme hipnotizante conduzido por um diretor e atores em estado de graça.

5º. lugar: Uma Batalha Após a Outra (2025)

Uma sátira dos nossos tempos insanos, o décimo trabalho de PTA é engraçado, estranho, assustador e imprevisível, ou seja, tudo que faz falta no cinemão comercial da atualidade. Leonardo DiCaprio interpreta um revolucionário meio de araque, que precisa salvar a filha adolescente quando ambos começam a ser perseguidos por uma cabala de homens brancos natalinos, e só ao escrever essas palavras já comecei a rir um pouco. Mas em meio a toda a confusão, o centro da história se mantém: é outro filme sobre pais e filhos, e sobre a comédia humana passando de uma geração para a outra. Talvez cresça numa revisão e suba ainda mais no meu ranking no futuro.

4º. lugar: O Mestre (2012)

Há alguns anos, PTA nomeou este como o seu favorito dentre todos os seus filmes, e é fácil perceber porque: Aqui ele criou um dos personagens mais incomuns e únicos do cinema recente, o estranho Freddie Quell interpretado por Joaquin Phoenix – esqueça Coringa, esta é que é a melhor atuação da carreira dele. Quase um animal, ele é adotado pela seita do escritor e guru interpretado por Philip Seymour Hoffman, guardando mais do que uma mera semelhança com o criador da cientologia, L. Ron Hubbard. A questão do filme é: sistemas, religiões, instituições, o que quer que seja, conseguem mesmo mudar o homem? É para cada espectador responder, após assistir a este filme tão estranho quanto maravilhoso.

3º. lugar: Magnólia (1999)

O épico de 3 horas do diretor traz um monte de personagens cujas histórias vão se cruzando em Los Angeles, e Magnólia tem de tudo: pai explorando filho, traições, reconciliações, amor e dor, um pequeno número musical no meio e a já clássica chuva de sapos. Só não é a obra-prima do diretor porque a ambição é muita, e o filme se perde em alguns minutos lá pelo meio, rodando em círculos e repisando conflitos. Mas as canções de Aimee Mann derretem qualquer coração, o elenco é sensacional – sobretudo Tom Cruise, na melhor atuação da carreira – e ao criar essa tapeçaria de drama humano, PTA cravou seu nome na história do cinema e nas almas de muitos espectadores.

2º. lugar: Boogie Nights (1997)

A primeira homenagem de PTA ao Vale de San Fernando aconteceu aqui, no filme levemente inspirado pela vida louca e real do ator pornô John Holmes. Mark Wahlberg – que nunca mais esteve tão bem – é o nosso fio condutor pela indústria do cinema pornográfico na virada dos anos 1970 para os 1980, como Dirk Diggler, astro bem “equipado” para essas produções. Junto com ele, Burt Reynolds, Julianne Moore, Don Cheadle e outros interpretam a maior família disfuncional da filmografia do diretor, que faz cinema e transa junto. Esses estranhos, no entanto, às vezes demonstram ter conexões mais fortes que os familiares de verdade em Magnólia. Parte homenagem ao cinema, parte uma obra sobre conexões humanas, Boogie Nights é absolutamente irresistível, e já perdi a conta de quantas vezes o assisti.

1º. lugar: Sangue Negro (2007)

Até o momento, esta é a obra máxima de Paul Thomas Anderson, na minha opinião. Sua primeira parceria com Daniel Day-Lewis, e também com o músico Jonny Greenwood, rendeu um filme magnífico na sua estranheza, abordando a trajetória de um homem que parece ser o capitalismo encarnado: Daniel Plainview é um personagem detestável, mas não conseguimos parar de ver o seu desligamento cada vez maior da humanidade, tudo filmado com belíssimas composições e um olhar quase alienígena por parte do diretor. Um dos grandes filmes do século XXI.