No tapete vermelho, o co-diretor de “Herança de Narcisa”, Daniel Dias, me disse ter buscado influência no componente “psicológico” do cinema de horror hollywoodiano dos anos 1940, prenhe de teorias psicanalíticas traduzidas em luzes e sombras. Ele me disse, enfim, estar interessado em um “terror psicológico”.
Algum espírito-de-porco poderia tê-lo interpelado: mas se o medo é um fenômeno psicológico, então todo filme de terror não seria, portanto, um “terror psicológico”? De modo que o termo “terror psicológico” não teria sido apenas uma invenção posterior para diferenciar o filme de terror “sério”, digno de estudo, do filme baixo e grosseiro, que busca os choques baratos, que, enfim, não engaja com a superior discussão “psicológica”?
Um tipo de filme, portanto, que está longe de corresponder às obras citadas pela dupla de diretores (além de Dias, a direção é assinada por Clarissa Appelt) como inspiração: a saber, os filmes B de Jacques Tourneur. Afinal, algumas décadas se passaram antes que seu cinema barato, cheio de pequenos truques para contornar o baixo orçamento, fosse alçado ao patamar da respeitabilidade.
Isso tudo poderia ter sido dito por algum espírito-de-porco — não por mim, claro, que sou uma boa pessoa. Mas o questionamento pairava no ar antes da sessão: seria “Herança de Narcisa” verdadeiramente assustador e macabro (como os filmes de Tourneur) ou apenas espertinho?
A primeira impressão é positiva: Ana (Paolla Oliveira) retorna ao casarão da falecida mãe e é recebida por uma benzedeira sinistra. A mulher, apropriadamente grisalha e desgrenhada, faz a limpeza espiritual do lugar por meio de um verdadeiro açoitamento à base de ervas. É um pouco da boa e velha diversão pulp.
Mas essa benzedeira sinistra logo dá lugar ao irmão de Ana (Pedro Henrique Müller). Memórias vêm à tona, traumas, fantasmas do passado, etc. Vocês já entenderam.
A dinâmica entre os dois logo se torna repetitiva, porque o filme não tem muito para onde ir uma vez estabelecido o mote básico — isto é, Ana precisa aceitar seu passado com a mãe. Resta efetuar um jogo de duplos, o que ao menos dá a oportunidade a Paolla Oliveira de se desdobrar em duas versões: a versão deprê como Ana, e a versão glamourosa como a matriarca Narcisa.
Se o destino do filme já está telegrafado desde a projeção sequer se iniciar, é precisamente pelas armadilhas conceituais que os cineastas armaram para si. Prova disso é que, quando o longa mergulha de vez no fantástico, quando a máquina de fumaça finalmente é ligada, o resultado parece bobo, pueril. Por quê? Porque “Herança de Narcisa” precisa sempre responder primeiro ao seu próprio afã psicologizante, em vez de simplesmente se entregar ao prazer de criar uma boa imagem horrorífica.
É uma pena, porque estamos diante de um filme que claramente se esforça. O problema talvez seja justamente esse: todo o esforço é em prol de um suposto “conteúdo”, e o longa deixa de lado o mais importante — meter medo.













