Um desejo antigo dos fãs da saga Alien era um filme que mostrasse o terrível Xenomorfo, ou vários deles, chegando à Terra para causar horror. O estúdio 20th Century Fox, que produziu os filmes com a criatura mais assustadora do universo, até flertou com essa ideia algumas vezes – quem esquece do teaser de Alien 3 (1992) prometendo ação com os monstros na Terra?
Pena que esse teaser saiu antes do filme ter sequer um roteiro e, depois quando ele foi lançado, a promessa não foi cumprida.
Enfim, décadas depois, coube ao estúdio Disney, após a compra da Fox, tornar esse sonho antigo dos fãs realidade, com Alien: Earth, a primeira série do universo Alien, agora no streaming do Disney +. E o resultado… bem, digamos que o sonho começa bem, mas depois se torna um pesadelo bobo.
A série se passa em 2120 – na cronologia da saga, 2 anos antes do filme original, Alien: O Oitavo Passageiro (1979), o clássico de Ridley Scott. Na Terra, não existe mais democracia – quem manda são as cinco grandes corporações que controlam a economia e as cidades (um futuro próximo?). Uma dessas corporações, a Prodigy, tem um projeto ambicioso para transferir as consciências de um grupo de crianças com doenças graves para corpos sintéticos. No meio desses experimentos, uma nave da Weyland-Yutani, a conhecida “Companhia” dos filmes originais, cai no meio de uma grande cidade, trazendo uma carga de formas de vida esquisitas e, claro, alguns ovos e um exemplar do Xenomorfo. Começa então uma competição entre as duas corporações pelas criaturas, com resultados, obviamente, sangrentos.
Para falar de Alien: Earth, é preciso falar do seu criador, Noah Hawley, a principal mente criativa da série – ele dirige dois episódios, é roteirista ou coautor em todos os oito, e é produtor executivo junto com Scott. Hawley tem se destacado na TV como um criador idiossincrático, quando não excêntrico, às vezes brilhante, como na série Fargo, criada por ele e inspirada pelo filme de 1996 dos irmãos Coen. Às vezes é inventivo e maluco, como na cultuada série Legion, inspirada em personagens do universo dos X-Men. E sua investida no cinema, bem… Lucy in the Sky (2019), com a Natalie Portman, foi embaraçoso de tão ruim.
Ou seja, até agora é um roteirista/criador que tem se dado bem ao recriar propriedades de outros, mas ainda conseguindo impor a sua visão. E no universo Alien, algumas das noções que Hawley introduz são interessantíssimas e trazem frescor e substância à narrativa. Mas em outros momentos, ele tropeça e feio, principalmente quando a temporada vai se aproximando do seu final.
Porque os primeiros episódios são excelentes. De cara somos apresentados a um incrível trabalho de direção de arte com os interiores da nave Maginot, recriando o visual do filme de Scott com brilhantismo – isso só demonstra o quanto o Alien original envelheceu bem, seus ambientes e visuais ainda parecem futuristas, hoje com um leve toque retrô. E os segmentos iniciais têm suspense e ação suficientes para satisfazer o mais ardoroso fã da saga. Há muita computação gráfica, claro, mas há também alguns impressionantes efeitos práticos para retratar as criaturas e especialmente o Xenomorfo. Ainda há outros bichos estranhos também: o mais interessante é um globo ocular com tentáculos, responsável por alguns dos momentos mais bizarros e tensos da temporada.
Justamente nesse início que o elenco mais se destaca e atores como Babou Ceesay, Samuel Blenkin, Sydney Chandler e o sempre ótimo Timothy Olyphant entregam grandes atuações. Ceesay acaba sendo o grande nome da série como o obstinado Morrow. Chandler é a protagonista Wendy, Blenkin vive o chefão da Prodigy – um daqueles personagens que dá vontade de socar toda vez que está em tela – e Olyphant parece ter se inspirado no replicante de Rutger Hauer em Blade Runner (1982) para compor o sintético Kirsh. Aliás, é possível perceber algumas leves homenagens a Blade Runner e aos filmes anteriores da saga Alien aqui e ali, nos episódios – são dicas visuais e fanservices sutis que com certeza passam despercebido para o espectador casual, mas que agradam aos fãs.
Até aí tudo bem, mas nos últimos episódios da temporada, parece que Hawley e seus colaboradores se esforçam para tomar todas as decisões erradas possíveis, a ponto de quase destruir o que o início da série construiu. De uma hora para outra, personagens começam a ter praticamente superpoderes, enquanto outros emburrecem para fazer a trama funcionar nos seus termos. E o Xenomorfo sai por uma floresta caçando soldados como se fosse um dos velociraptors de um filme Jurassic Park.
E com o tempo, a decisão de fazer adultos interpretando crianças deixa de ser uma boa ideia que favorece o drama e se torna uma forma de justificar as burrices que os personagens cometem. Sério, se você reclamou dos cientistas estúpidos de Prometheus (2012) e Alien: Covenant (2017), as duas prequels da franquia dirigidas por Scott, prepare-se para alguns momentos desta série. Isso, aliado a algumas cenas “vergonha alheia”, como a Wendy se comunicando com o Xenomorfo fazendo barulhinhos com a boca, tornam o desfecho da temporada uma das coisas mais brochantes, com o perdão do termo, numa série sci-fi dos últimos anos.
Alien: Earth em alguns momentos parece um híbrido, assim como seus personagens batizados como os Garotos Perdidos da história de Peter Pan: É o Noah Hawley inteligente e poderoso de Fargo se transmutando, ao final, no cara que fez o terrível Lucy in the Sky. A saga vai continuar: no cinema, Alien: Romulus (2024) foi um sucesso de bilheteria e crítica, e esses filmes, assim como o seu monstro titular, parecem estar sempre evoluindo em direções novas e assustadoras. Mas para a segunda temporada de Alien: Earth, talvez fosse bom acontecer uma nova engenharia genética para salvar a história. Como a maioria dos experimentos de cientistas loucos em filmes, esse aqui chega bem perto de virar um fracasso completo.













