Ao longo das décadas, a saga Alien se tornou um marco do cinema e é curioso como conseguiu isso sem seguir a “mentalidade de franquia” tão presente na Hollywood de hoje. Os filmes que compõem a quadrilogia original são todos diferentes entre si quanto ao tom, foram feitos por diretores diferentes que conseguiram imprimir suas personalidades ao material e cada longa se arriscou em direções inusitadas.
O próprio criador da parada, o cineasta Ridley Scott que fez o Alien: O Oitavo Passageiro (1979) original, depois reinventou a franquia. Pode-se fazer muitas críticas a Prometheus (2012) e a Alien: Covenant (2017), mas não se pode dizer que são “mais do mesmo”: Scott se arriscou ao introduzir um tema existencialista à saga, relacionando-a com a origem da humanidade, pena que os roteiros com que trabalhou não estavam à altura da ambição.
Agora chegamos ao novo capítulo, Alien: Romulus, produzido por Scott e dirigido pelo uruguaio Fede Álvarez. É o primeiro filme da saga que não quer ir por um caminho diferente: Álvarez deseja voltar ao básico, ao que já deu certo antes, e no processo faz um filme com suspense, ação e boas doses de horror espacial e niilismo. Ele não quer reinventar a roda, apenas relembrar às pessoas do que os atraiu àquele universo em primeiro lugar, há 45 anos – é uma carta de amor escrita com sangue ácido ao filme de Scott. Alien: Romulus é um arroz com feijão bem feito, é gostoso e satisfaz.
INDO FUNDO NA ESSÊNCIA
Álvarez se mostrou um candidato adequado ao filme porque, de certa forma, já tinha feito um filme Alien antes, no ótimo suspense O Homem nas Trevas (2016). Pode-se até considerar este Romulus como uma versão sci-fi daquele filme, pois a história é bem parecida: temos personagens jovens e sem perspectiva, vivendo em uma colônia mineradora miserável onde o sol nunca brilha, comandada pela Weyland-Yutani, a “Companhia”, a megacorporação que domina tudo no universo Alien. Eles decidem aplicar um golpe, invadindo uma estação espacial próxima aparentemente abandonada para roubar seus recursos e recomeçar a vida em outro planeta. Porém, nesta estação, com dois módulos batizados de Romulus e Remus, cientistas estavam fazendo experimentos com a forma de vida mais letal do universo que espreita nos corredores do lugar.
O diretor, também um dos roteiristas, entende que todo filme Alien, na verdade, é sobre um grupo de pessoas presas em uma lata de sardinha, com um monstro assassino. Álvarez então se assegura de que gostemos ao menos de algumas das pessoas presas – os protagonistas vividos por Cailee Spaeny, de Priscilla (2023), e David Jonsson possuem um elo emotivo que carrega a história, e os atores os defendem muito bem – e insere referências ao filme original, ao segundo, Aliens: O Resgate (1986) de James Cameron, e também a Prometheus. Há ainda uma inusitada participação de um dos atores do filme original, revivido por animatrônicos e um pouquinho de computação gráfica.
Alien: Romulus busca uma atmosfera definitivamente retrô, se baseando no design futurista, mas nem tanto – para os padrões de hoje – do longa de 1979. E claro, a direção de arte capricha nos cenários pesados e escuros, maquinário enferrujado, luzes piscantes e jatos de fumaça. Efeitos sonoros do original também são usados. Nesse sentido, Romulus até lembra um pouco com o elogiado game Alien: Isolation, lançado em 2014 e que poderia tranquilamente ter sido um filme da franquia.
E Álvarez é tão purista ao homenagear a franquia que faz a plateia esperar um pouco pela entrada em cena dos monstros, usando efeitos práticos pela maior parte do tempo: a produção construiu bonecos animatrônicos do Alien e outras criaturas vistas no filme, e essa decisão adiciona ao suspense. Aliás, são alguns momentos em que os cineastas confiam no CGI que destoam.
PASSEIO NO TREM-FANTASMA
O subtexto de crítica ao capitalismo, presente em toda a saga, também é revisitado. No universo opressivo de Alien, são os empregados e pobres que se dão mal, sendo considerados “dispensáveis” frente ao desejo da corporação de obter a biotecnologia das criaturas, chamadas Xenomorfos. Em Romulus, é a tentativa de perseguir um sonho de uma vida melhor que faz os personagens encararem o maior horror do universo, que é hostil aos seus desejos. E algumas reviravoltas da história adicionam a essa temática. Na saga, ninguém pode ouvir você gritar face à opressão da empresa, e Álvarez não perde de vista essa característica essencial dos filmes.
No fim das contas, Alien: Romulus sabe exatamente o que é: um passeio no trem-fantasma, um filme de casa assombrada no espaço e que não foge da violência e das imagens perturbadoras que os predecessores deixaram impressas na mente de espectadores no mundo todo. E de fato, ele amplia o debate sobre o cenário de cinema que temos hoje, em transição: Este é o primeiro Alien feito após a compra do estúdio 20th Century Fox pela Disney.
Sim, agora a saga pertence à maior das megacorporações do entretenimento. Ainda assim, o que é mais válido dentro do cinemão comercial, se arriscar – e o risco não é garantia de sucesso, vide Prometheus e Covenant – ou fazer o básico bem feito? A resposta não é tão clara, por mais que sejamos sempre a favor da inovação. Romulus não traz nada de realmente novo, mas é melhor que alguns dos capítulos anteriores, inclusive os últimos comandados por Ridley Scott. E se a saga tem que continuar – leia-se, $$$ – então este aqui ao menos apresenta uma direção interessante. Mesmo sendo uma coletânea de maiores sucessos da franquia, o longa ainda consegue trazer um entretenimento capaz de mexer com os nervos.
Talvez isso, mais do que tudo, comprove a genialidade do longa de 1979 e a sua capacidade de, décadas depois, ainda perturbar espectadores. Aquele era um “organismo perfeito”, de fato.














