A infância é um período da vida em que a pessoa enxerga o mundo de uma forma inocente e ingênua, em que certas questões mais maduras são absorvidas com leveza e imaginadas de forma literal e lúdica. Essa ideia é o que norteia A Garota Canhota, produção de Taiwan que representa o país no Oscar 2026. Um drama indie acolhedor e sutil que aborda com muita competência três gerações de mulheres e seus desafios dentro do contexto cultural de seu país.
A produção tem o envolvimento de Sean Baker, um nome referência do cinema indie, vencedor do Oscar por Anora. No longa, o cineasta atua como editor, produtor e roteirista do projeto. Logo de início já se nota a mão dele, seja pela forma natural de contar a história, bem como o estilo tecnicamente mais cru. Nesse caso, o filme ser gravado pelo Iphone dá um caráter mais rústico e realista, lembrando bastante Tangerine de 2015.
A trama segue a história de três mulheres em diferentes fases da vida: a mãe solteira Shu-Fen, a filha adolescente I-Ann e a filha mais nova I-Jing, que tem o arco inusitado que dá nome ao filme. Todos esses arcos narrativos, individuais refletem muito o contexto cultural do país e os desafios que as mulheres lidam em uma sociedade machista. As diferenças de gerações trazem abordagens específicas para um tema único, algo que o roteiro sabiamente consegue transmitir de uma maneira bem humorada.
Também disserta acerca de ambientes familiares imperfeitos e a hipocrisia das aparências. Não só isso, como é também uma luta pela sobrevivência delas em um novo ambiente e o processo de adaptação. Mesmo com temas bem atuais, a produção escolhe uma abordagem mais aconchegante. Há todo um segmento envolvendo um Suricato que é bem divertido de acompanhar.
A narrativa se desenvolve de forma agradável, mas sobretudo, o foco maior é na I-Jing e a sua forma jocosa de enxergar a sua realidade. O seu arco é trabalhado de forma criativa, acrescentando um carisma absurdo para o filme. Sem falar no excepcional trabalho da atriz Nina Ye, cheia de uma doçura e comentários contundentes. A ideia de o avô associar a mão esquerda dela como a “mão do demônio” representa um pensamento retrógrado que desencadeia ainda mais um comportamento errôneo por parte da menina, começando a cometer pequenos furtos e colocando a culpa em sua mão esquerda.
O roteiro trabalha muito bem essa problematização da fala do avô e os impactos dela na mente da criança, pois ela ainda não tem a consciência e maturidade para entender o comentário preconceituoso pelo fato dela ser canhota. Um tópico sensível que o roteiro resolve explorar de forma inventiva para de adequar ao tom do filme, mas ainda assim, chama a atenção para como isso pode ser danoso à criança.
No lado da irmã mais velha, ela se vê lidando com o abandono dos estudos e do pai, da gravidez precoce e da responsabilidade de ajudar a mãe e cuidar da irmã. Uma realidade muito palpável no mundo real, em que muitas jovens passam por essas situações. Além disso, a mãe encara as dívidas do ex-marido e o sustento financeiro delas. O filme acerta nesses conflitos tão humanos e comuns, causando uma identificação muito forte do público com elas.
A diretora Shih-Ching Tsou, colaboradora de longa data de Baker, tem uma condução bem pessoal, já que a história retrata uma vivência dela na sua infância. O filme é visto através de uma perspectiva mais singela, com a câmera muitas vezes à altura da I-Jing, refletindo a sua pequenez diante da grandeza e a diversidade da cidade. A fotografia é bem iluminada e limpa, trazendo uma sensação de beleza natural do lugar. Sem falar que a diretora opta por muitos planos nos rostos das personagens, para causar uma sensação de intimidade e aproximação.
Entretanto, todo o arco de I-Jing acaba muitas vezes ficando em segundo plano na história, sendo que o nome do filme gira em torno dela. A resolução da sua narrativa acaba ocorrendo de forma prematura, dando mais foco na irmã mais velha no segmento final. Quando parecia que o filme ia se estender demais, o roteiro joga uma reviravolta genial e inesperada, que acentua ainda mais a questão da família imperfeita, tema que ressoa bastante durante a narrativa.
Coberto por um realismo gentil e gracioso, A Garota Canhota lida com a luta de três gerações de mulheres se impondo em uma cultura que muitas vezes as renegam e oprimem. O longa conquista com sua fácil identificação e com a sua simpatia de retratar uma família fora dos padrões buscando e no caminho para construir sua própria felicidade.













