Mais do que duas das principais atrizes da atualidade do cinema norte-americano, Kristen Stewart e Imogen Poots são grandes amigas. Somente com uma parceria de longa data que ambas encararam um dos projetos mais desafiadores de 2025: “A Cronologia da Água” adapta o livro homônimo de Lidia Yuknavitch. 

O estilo visceral da obra sobre os abusos sexuais sofridos por Lidia, cometidos pelo próprio pai dela, e os consequentes efeitos que provocam dela são transportados para a tela também de forma furiosa na estreia de Kristen Stewart na direção de longas-metragens. Em um grande ano, Imogen Poots se entrega em uma das melhores performances protagonistas do ano que, infelizmente, está sendo deixada de lado pelas premiações.

O Cine Set conversou com Kristen e Imogen sobre os bastidores e os desafios para realizar “A Cronologia da Água”, previsto para chegar aos cinemas brasileiros no dia 5 de fevereiro de 2026 Confira abaixo:

Cine Set (Pâmela Eurídice) – Como surgiu a ideia de fazer A Cronologia da Água?

Kristen Stewart – Bom, é um livro de memórias incrível, escrito por uma voz bastante radical. Eu li o livro e, acho que com cerca de 40 páginas, já estava convencida de que esse seria o meu primeiro filme como diretora. Tenho este sonho de dirigir desde criança. E havia algo na natureza intrusiva das imagens fragmentadas, na forma como elas são emocionalmente conectadas, mesmo sendo tão dispersas e atravessando quatro décadas diferentes. Era como se houvesse algo na forma do livro, uma espécie de “permissão” que ele se dava, que parecia vital, urgente, moderno e assustador.

Nossos desejos acabam sendo arrancados de nós por uma sociedade violentamente opressora, independentemente de você ter vivido ou não o tipo de abuso que a Lydia descreve no livro. Aquilo me pareceu falar diretamente com pessoas que têm dificuldade de articular o que sentem, pessoas que acabam personalizando isso e internalizando muita vergonha. Quando, na verdade, é como se você estivesse engolindo algo que vem de fora do corpo, colocando isso para dentro — como se estivesse engolindo vidro.

Logo, é necessário tentar retirar esses pedaços, colocá-los para fora e reconhecer todas as cicatrizes. Elas não desaparecem, mas são parte de quem você é. E, se você consegue encontrar um padrão que faça sentido para você, pode transformar coisas muito feias em algo muito bonito. O livro faz um trabalho extraordinário ao descrever esse processo. Para mim, foi imediato: esse é um filme que precisa estar vivo, se mover, caminhar e respirar.

Cine Set (Pâmela Eurídice) – Imogen, há muita sensibilidade na sua interpretação da Lydia. Que elementos você mobilizou para construir essa personagem?

Imogen Poots – Só o fato de ter sido uma mulher por 36 anos já te prepara para interpretar um papel como esse. Acho muito empolgante que agora exista, no cânone, uma personagem como essa para as pessoas verem — alguém baseada na vida real de uma pessoa, mas que, como a Kristen já disse antes, é a nossa every woman, a mulher comum, universal.

Lidia está ali com todas as suas incoerências, todas as suas esperanças, seus processos de autossabotagem, de reajuste, de tentar de novo. Tudo isso é muito importante e muito reconfortante. E me deixa realmente orgulhosa saber que fizemos esse filme juntas, com ela no centro de tudo. Então, a Lydia tem um quê barroco.

Cine Set (Caio Pimenta) – Ao longo da sua carreira, você trabalhou com tantos diretores importantes, de diferentes países. Houve alguém em especial que te influenciou mais quando você passou a dirigir?

Kristen Stewart – Eu amo trabalhar com Olivier Assayas e Pablo Larraín. Não porque eles são esses “homens grandões”, cheios de prestígio e ego. Os dois são assim por um motivo: são líderes espirituais, cheios de alma, poetas. Pessoas profundamente imersas em uma história do cinema, com muito conhecimento. Eles me faziam sentir como se eu estivesse dirigindo os filmes em que trabalhei com eles. Nunca houve uma barreira, nunca existiu nada de pedante na forma como falavam comigo. Era sempre uma espécie de fusão de mentes e almas, e o que surgia disso era o filme.

Essa confiança, essa coisa da amizade, é essencial para fazer algo puro. Quero dizer, foi por isso que eu esperei… eu não faria esse filme com ninguém além da Imogen, porque eu pensava: não vai funcionar. Essa é a pessoa certa. Tenho muitos amigos, mas essa amizade é realmente, realmente especial.

Assayas e Larraín me mostraram que os filmes podem, sim, ser sobre o que existe dentro de você. “A Cronologia da Água” fala justamente de autorrevelação em um mundo que é bastante hostil a esses aspectos internos dessa mulher específica. Então, sim, esses dois caras fizeram muito por mim.

Cine Set – (Caio Pimenta) – Qual foi a orientação mais importante que Kristen lhe deu para a criação de Lidia, algo que permaneceu com você durante todo o filme?

Imogen Poots – Foi a ideia de que você vai entregar algo, de que vai tentar, o tempo todo, chegar o mais perto possível da verdade — mas tendo uma diretora ao seu lado, alguém que entende o desafio e que está resolvendo problemas junto com você o tempo inteiro. A Kristen tem essa capacidade de perceber as coisas em um nível quase microscópico, mas, ao mesmo tempo, de ter uma fé enorme. É muito relaxante quando alguém acredita em você. Isso não acontece sempre. Se acontecesse, você estaria vivendo uma vida muito fluida o tempo todo.

Isso não quer dizer que não tivemos momentos de debate, de discordância, em que pudemos ser totalmente honestas uma com a outra. Isso também fala de um respeito mútuo muito profundo. Existe um entendimento. Essa é a beleza de um grande diretor: não tem a ver com dar notas, não tem a ver com uma ideia que precisa ser imposta ou desenvolvida. Tem mais a ver com um apetite constante, com uma troca intensa. É uma colaboração do começo ao fim.

Nunca tinha vivido uma experiência assim antes. Foi algo muito, muito especial. E o elemento da amizade é enorme. Quando você ama alguém de verdade, em um nível profundo, e trabalha junto nessa coisa, isso vira parte da sua única vida. E quem sabe quanto tempo a gente tem aqui, mas nós compartilhamos isso — e isso é algo histórico, algo muito forte para carregar pelo resto da vida.