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Estamos na academia, aparelhos de exercícios, alguém segue sua prática. Braços, pernas, ombros, suor; inquieta, a câmera enfoca e passeia quase como a examinar o corpo daquele sujeito dedicado. Há tanto a se notar em Obeso Mórbido: um olhar, uma dor, um desnude, um despontar. Temos aqui um filme a servir como análise de um objeto complexo e amarrado pelas próprias desordens físicas e emocionais.
A história traz Diego (Diego Bauer), um ator da cidade de Manaus que leva sua vida com pequenos trabalhos de atuação. Adepto das práticas saudáveis, se equilibra entre exercícios físicos e hábitos alimentares; no entanto, a sombra de ter sido uma pessoa obesa em outro momento da vida o persegue. Seus impulsos e questões emocionais afetarão suas relações e irão provocar novas transformações em seu corpo.
Com direção e roteiro do próprio Bauer, o longa trabalha a questão da idealização do físico como mote central dos conflitos que o personagem principal perpassa em questões mal resolvidas de sua vida. Diante disso, nos deparamos, no início da produção, com um protagonista que possui um corpo visto como padrão após uma perda considerável de peso, e sua vida é condicionada às escolhas diárias de comportamento e restrição — por exemplo, a recusa de beber refrigerante em um trabalho para um comercial de TV. Ainda nessa perspectiva, faz-se presente a dualidade de um atormentado Diego que, ao se sentir mais confiante e resoluto de suas ações, acaba por tratar mal pessoas — principalmente quando sente as inseguranças e impulsos arranhados.
Nesse trajeto, Obeso Mórbido expõe de forma natural as inquietações de Diego ao não ter pressa em propor um universo orgânico e tumultuado do personagem. Figuras diversas passam pelo seu caminho e agregam nessa jornada de transformações, seja de corpo ou psique. Uma Manaus urbana e autêntica vira palco das ações do ator em um redemoinho de sensações, no qual hesitamos, rimos e nos desesperamos junto da crueza incômoda e impressionante deste falho homem.
Dessa maneira, o filme amazonense promove inserções de cenas muito particulares, ao mesmo tempo condizentes com a proposta do roteiro, a exemplo da já marcante (e hilária) cena da propaganda de sunga, na qual o rapaz precisa “se encaixar” dentro do mesmo quadro com mais quatro homens, além da famigerada cena de Diego comendo sozinho um bolo, que é tensa, incômoda e angustiante.
Existe uma habilidosa maneira de evocar no filme essa síndrome do peso, do físico e do espaço a ser preenchido, na qual firulas visuais e rimas permanecem, como a já citada cena dos homens enquadrados ou os movimentos de câmera alternados à medida que Diego sofre modificações em seu corpo.
Para tanto, mais que um retrato autoficcional e uma estrada experimentalista de ideias, trata-se da síncope de uma criatura desiludida pela própria figura, esta perdida em seu próprio eixo. Obeso Mórbido é um forte conto sobre um indivíduo e suas lutas obsessivas e o vazio interminável do homem e seus (des)prazeres.














