Em 2026, Pecadores fez história: com 16 indicações ao Oscar, é o filme com mais nomeações na história da premiação, batendo os antigos recordistas em número de indicações, A Malvada (1950), Titanic (1997) e La La Land (2016), que receberam 14 cada um. E no momento de publicação deste artigo, Pecadores chega com chances reais de ganhar vários Oscars, incluindo Melhor Filme.
Um grande feito, ainda mais quando lembramos que se trata de um filme que, além de abordar a cultura negra americana, é também um filme de terror e dos bons, um exercício de gênero com vampiros, sanguinolência e sustos. Sempre ouvimos falar que a Academia tem preconceito com terror: É um gênero popular, que traz dinheiro para os estúdios e impulsiona muitas carreiras. Mas na hora dos prêmios, eles preferem os dramas edificantes, cinebiografias e títulos com prestígio.
Mas será que isso é verdade mesmo? Vamos analisar a história do terror na premiação do Oscar para responder: Realmente, a Academia não gosta de levar sustos?
O Médico e o Monstro (1931)
Justo na época em que o ciclo de horror do estúdio Universal estava levando multidões aos cinemas com Drácula e Frankenstein – ambos de 1931 – foi esta adaptação do clássico romance de Robert Louis Stevenson para o cinema que rendeu o primeiro grande Oscar para um filme do gênero. Fredric March levou como Melhor Ator por sua atuação dupla como Dr. Jekyll e Mr. Hyde, e a cena da sua transformação ainda é lembrada e marcante.
E falando no ciclo clássico dos monstros da Universal, apenas a luxuosa adaptação de O Fantasma da Ópera (1943) recebeu amor da Academia: foi indicado a 4 Oscars e ganhou dois, Melhor Fotografia e Direção de Arte.
O Exorcista (1973)
O clássico de William Friedkin sobre uma menina possuída pelo demônio e a luta de dois padres para salvá-la foi o primeiro filme de terror genuíno a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme. O Exorcista recebeu 10 indicações, incluindo também para o diretor e o elenco – Ellen Burstyn, Linda Blair e Jason Miller foram indicados como Atriz, Atriz Coadjuvante e Ator Coadjuvante, respectivamente – e ganhou dois, o de Melhor Som e o importante prêmio de Melhor Roteiro Adaptado para William Peter Blatty, que escreveu o roteiro baseado no seu próprio romance.
Tubarão (1975)
Por ter elementos de aventura e drama, algumas pessoas não pensam no clássico de Steven Spielberg como terror, mas ele é: talvez o mais influente filme de monstro já realizado, o primeiro blockbuster da história até hoje faz as pessoas ficarem com medo de entrar no mar, e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme. Tubarão ganhou três prêmios na cerimônia de 1976: Melhor Montagem para Verna Fields, Melhor Som e Melhor Trilha para John Williams.
INDICAÇÕES E VITÓRIAS IMPORTANTES
Ao longo dos anos, tivemos indicações importantes e algumas vitórias técnicas marcantes para o gênero. Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, teve 4 indicações, incluindo para o diretor e a atriz Janet Leigh, mas não concorreu a Melhor Filme. Por Carrie, a Estranha (1976), Sissy Spacek e Piper Laurie foram indicadas como Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante.
E falando em adaptações do mestre do terror literário Stephen King, a única delas a ganhar um Oscar foi Louca Obsessão (1990), no qual Kathy Bates levou como Melhor Atriz. E outro prêmio importante de atuação para o gênero foi o Oscar de Atriz Coadjuvante para Ruth Gordon por O Bebê de Rosemary (1968).
A Profecia (1976) rendeu merecidamente o Oscar de Melhor Trilha Sonora para o maestro Jerry Goldsmith, o único da sua carreira. Alien (1979) levou o Oscar de Efeitos Visuais, e pela sua continuação, Aliens: O Resgate (1986), Sigourney Weaver conseguiu ser indicada como Melhor Atriz.
Além disso, dois Oscars marcantes de Melhor Maquiagem foram para o terror, com as vitórias de Um Lobisomem Americano em Londres (1981) e A Mosca (1986). Drácula de Bram Stoker (1992) também ganhou esse Oscar, além dos de Melhor Figurino e Edição de Som.
O Silêncio dos Inocentes (1991)
Aqui, uma tendência começou a ser observada: o clássico de Jonathan Demme foi vendido como “thriller”, ou “suspense”, mas é um filme claramente de horror psicológico, sutil em sua abordagem, mas trata de assassinos em série, canibalismo e mortes grotescas. Essa “camuflagem” às vezes ajuda um filme a cair no gosto das premiações, e aqui funcionou, pois O Silêncio dos Inocentes é um de três filmes na história do Oscar a ter conquistado o “Big 5”, apelido que se dá aos prêmios mais importantes da noite: ganhou Melhor Filme, Diretor, Atriz (Jodie Foster), Ator (Anthony Hopkins) e Roteiro, no caso adaptado do livro de Thomas Harris.
Os outros dois “Big 5” são a comédia romântica Aconteceu Naquela Noite (1937) e o drama Um Estranho no Ninho (1975).
O Sexto Sentido (1999)
Outro filme que na época fez campanha como drama ou suspense, mas se trata de uma história de fantasmas e que tem sua cota de cenas assustadoras… Além de um fenômeno de bilheteria, O Sexto Sentido concorreu a seis Oscars, incluindo Melhor Filme, Diretor para M. Night Shyamalan, e Toni Collette e Haley Joel Osment concorreram como Atriz Coadjuvante e Ator Coadjuvante, respectivamente.
Indicações recentes
Cisne Negro (2010) é outro titulo marcante, que foi vendido como drama/suspense sobre balé, mas é um filme de terror psicológico. Concorreu a Melhor Filme, e rendeu a Natalie Portman o Oscar de Melhor Atriz.
Corra! (2017), de Jordan Peele, sinalizou uma certa mudança por parte da Academia: vendido como terror social, aborda o tema do racismo já seguindo a onda do “terror elevado” ou “pós-terror”. Peele não fugiu do rótulo do gênero e o filme concorreu a quatro Oscars: Filme, Diretor, Ator para Daniel Kaluuya e Roteiro Original, sagrando-se vencedor nesta última categoria.
A Substância (2024) concorreu como Melhor Filme, Diretor para Coralie Fargeat – a primeira mulher nomeada por dirigir um filme do gênero – e Atriz para Demi Moore, mas ganhou só com Maquiagem. E este ano, além de Pecadores, temos Frankenstein (2025) de Guillermo del Toro, concorrendo como Melhor Filme e em categorias técnicas e de atuação. Del Toro já recebeu amor da Academia com fantasias que têm elementos de terror, como O Labirinto do Fauno (2006), vencedor de Fotografia, Direção de Arte e Maquiagem, e A Forma da Água (2017), vencedor como Melhor Filme e Diretor.
E então… Existe preconceito contra o terror?
Podemos apontar algumas tendências. Em 98 anos de Oscar, nove produções concorreram ao prêmio principal de Melhor Filme: O Exorcista, Tubarão, O Silêncio dos Inocentes, O Sexto Sentido, Cisne Negro, Corra!, A Substância, Pecadores e Frankenstein. Dos nove, só um venceu.
Uma observação pode ser feita aí: esses filmes se aproximam de “dramas de prestígio” e não se focam em violência ou sustos, embora os apresentem. Alguns são adaptações literárias, o que também ajuda a colocar um verniz de prestígio.
Filmes com subtexto que os aproximam de assuntos sérios também dão a tônica: temática racial em Corra! e Pecadores; etarismo e o papel da mulher em A Substância. Aliás, esses indicados mais recentes sugerem uma tendência de abertura maior da Academia para o gênero. Afinal, mais da metade desses nove títulos vieram dos últimos 15 anos.
Mesmo assim, jornalistas, críticos e internautas fizeram muitas reclamações nos últimos anos a respeito de esnobadas: Grandes desempenhos de atrizes dentro do gênero foram ignorados pela Academia, como os de Toni Collette por Hereditário (2018), Lupita Nyong’o por Nós (2019), e Mia Goth por Pearl (2022). Muitos também apontam que o “fator terror” também pesou para Demi Moore no fim das contas não ganhar por A Substância.
É fato que a maioria dos membros votantes da Academia de Hollywood apresenta um perfil conservador. Mas mudanças desde a última década de fato aumentaram a diversidade do corpo votante, e também dos gostos. Isso indica que poderemos ver mais títulos de terror indicados, e ganhando prêmios no futuro? A análise aponta que sim – e uma consagração de Pecadores confirmaria esse processo – mas é melhor esperar um pouco mais para saber.
Ainda assim, os números não mentem: 9 indicados em 98 anos, com apenas uma vitória. E percebe-se que embalar os sustos e o sangue em rótulos como “drama psicológico”, “terror elevado” ou “crítica social” ajuda na simpatia da Academia.
Ainda assim, Oscar não é tudo. Peguemos um ano aleatório: 1982. Quem é mais lembrado e assistido hoje, O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter, ou o vencedor do Oscar daquele ano, Gandhi? O tempo é o verdadeiro juiz da arte, não as premiações.




















