ALERTA: texto contém SPOILERS 

O término da segunda temporada de Paradise foi desanimador. Tudo bem, o primeiro ano não tinha sido nada memorável com uma trama girando em círculos sobre o assassinato do presidente Cal Bradford (James Marsden). O excelente penúltimo episódio quando descobrimos como aconteceu o fim do mundo, pelo menos, tirava do marasmo a série disponível no Disney+. 

Desta vez, porém, Dan Fogelman, showrunner conhecido mundialmente por This Is Us, perdeu o rumo totalmente. Paradise chega a constranger nos piores momentos, enquanto dá sono naquilo que tem de ‘menos pior’. Listo agora os principais erros de uma temporada que deve colocar a série perto do apocalipse. 

THIS IS US NO FIM DO MUNDO 

Se a primeira temporada ficou concentrada no suspense do ‘quem matou’ e na ação relativa ao fim do mundo, Fogelman investiu no drama neste segundo ano. O foco completo em Annie no episódio inicial deixa claro esta aposta: enquanto ficamos pensando em como a história dela irá se encaixar na trama principal, Shailene Woodley, sempre competente, prende o espectador ao dar vida a uma personagem traumatizada e sozinha em Graceland (isso mesmo, a antiga casa de Elvis Presley) enquanto o caos domina planeta lá fora. 

A chegada de Link (Thomas Doherty) e seu grupo, porém, joga tudo pelos ares. Primeiro por exagerar no bom mocismo – em um mundo tão cínico como o atual e após séries como The Last of Us e The Walking Dead, é pedir demais acreditar que só tem anjinhos naqueles sujeitos a ponto de fazerem um delicioso jantar para a mocinha.  

Segundo pela gravidez de Annie na única relação sexual dela com Link e tudo o que decorre disso, incluindo a morte logo no terceiro capítulo (se era para morrer tão cedo, por que gastaram tanto tempo com ela?). Para piorar, sobra para Xavier Collins (Sterling K. Brown) ficar com a missão de levar a criança para o pai, algo que mal lembramos ao longo da temporada. 

Tudo isso, claro, com muita trilha triste e cenas dramáticas que buscam nos comover sem conseguir. Um desperdício de tempo que dura três episódios. 

IA E VIAGEM NO TEMPO? 

Até o início desta temporada, Paradise era uma série sobre catástrofes naturais e sobrevivência. Isso, claro, com um pouquinho de ação e suspense. Fogelman decidiu utilizar o segundo ano para ampliar as possibilidades e resolveu acrescentar dois novos temas: inteligência artificial e viagem no tempo. Má notícia: deu errado para ambos. 

Não há dúvidas que o showbusiness dos EUA está preocupado com a IA – até mesmo The Pitt aborda a questão neste segundo ano da série médica. Paradise vai pela mesma linha criando a partir de um mistério sobre uma tal de Alex citada por Sinatra (Julianne Nicholson). Aparentemente, havia a intenção de se criar um mistério à la Lost sobre quem seria a tal de Alex, mas são tantas subtramas para dar conta que o tempo passa e o assunto fica em segundo plano.  

Quando enfim o segredo acaba sendo revelado no último episódio, nota-se uma dificuldade em explicar claramente o conceito, que tudo acaba ficando confuso e mais questões surgem – somente Sinatra sabia? Ela escondeu do presidente? Se havia outro bunker, por que não colocaram mais gente? Honestamente, tenho medo se a série será capaz de oferecer respostas mínimas para tudo isso. 

A bagunça fica completa quando se mistura a possibilidade de viagem no tempo. Os flashes de Xavier vendo Link no futuro, a informação de que a bebê Jane seria uma assassina no futuro (o sujeito tentando matá-la é, aliás, o momento mais bizarro da temporada) e Sinatra vendo o filho morto no John Connor de Paradise são aleatórios demais. E sério mesmo que fizeram os personagens sangrarem pelo nariz para mostrar que há algo errado naquela realidade? 

CADÊ SINATRA? 

Melhor personagem da primeira temporada, Sinatra custa a aparecer neste novo ano de Paradise. Somente no terceiro episódio que Julianne Nicholson dá o ar da graça, mas pouco se avança em relação à personagem. 

Todo o flashback mostrando a aquisição da tecnologia para construir o bunker reforça que escrúpulos não é o forte da moça, algo que já tínhamos visto no primeiro ano. A luta de Sinatra para manter o local fora de perigo se esvai ao longo desta temporada a ponto de praticamente abrir mão na reta final. Por fim, o imbróglio envolvendo o filho supostamente morto deixa claro como Fogelman força os ganchos emocionais ao limite. 

O péssimo desenvolvimento da personagem ao longo da temporada esvazia o teórico sacrifício de Sinatra. Ali, já pouco importa se ela vive ou morre até por ser um gancho preguiçoso e previsível para um terceiro ano (aposto meu suado dinheiro que ela ressurgirá belíssima no fim de algum episódio antes da metade da futura temporada). Lamento pela excelente Julianne Nicholson, refém de uma série de decisões equivocadas. 

PROTAGONISTA AQUÉM 

Quem dera apenas Sinatra tivesse sido desperdiçada na segunda temporada. Xavier Collins também vive maus momentos em Paradise: a missão do personagem de Sterling K. Brown de encontrar a esposa a qualquer custo até começa bem na agoniante queda do avião. Infelizmente, a tensão se dilui ao se meter no arco de Annie. Até Shailene Woodley sair de cena, tudo o que o envolve fica em segundo plano. 

Apenas na metade da temporada que Collins retoma o plano original e não demora muito para encontrar a esposa. Daí em diante, só resta voltar para o bunker. Chega a ser inacreditável como Fogelman não conseguiu criar mais nada para seu personagem principal. Por mais carismático que seja e encarando a postura de herói sem dificuldades, Brown sofre com o que roteiro pobre não oferece, diluindo a jornada dele ao longo da temporada. 

COADJUVANTES SEM NADA A DIZER 

Se está complicado para os protagonistas, imagina para os coadjuvantes de Paradise… A quantidade de figuras desinteressantes que somos obrigados a acompanhar bate recorde na segunda temporada. O núcleo dos filhos metidos a revolucionários no bunker serve apenas para sentirmos saudades de Sinatra, Collins e Bradford. Falando da presidência dos EUA, a morte do novo líder do país, talvez, seja uma crítica a Donald Trump e o vazio da Casa Branca atual. Ok, sei que estou viajando, porém muito menos que Fogelman ao criar esta subtrama estúpida sem efeito algum. 

Se Link pode ser o John Connor, Jane Discroll seria o T-1000 de Paradise. Nicole Brydon Bloom espelha muito bem a frieza da assassina, quase como uma máquina. O destino da personagem, entretanto, não poderia ser mais cruel ao estar no meio da bagunçada ideia de viagem no tempo e ainda ser morta quando parecia ganhar mais destaque na série.  

Para não dizer que não falei de flores, cito aqui Gary: o carteiro que salva inúmeras pessoas no fim do mundo protagoniza o quinto e melhor episódio desta temporada. Em um raro momento que Paradise explora as milhares de possibilidades abertas diante daquele universo, Fogelman mostra como a catástrofe deu sentido para vida de certas pessoas.  

Se antes uma figura invisibilizada e sem amigos, Gary forma uma família no abrigo onde vive com uma dezena de sobreviventes. Cameron Britton expressa bem esta angústia e contradição ao ver o mundo voltar ao normal, o que, para ele, não significa que seja algo melhor para ele. Pena que tudo indica a participação dele ter acabado nesta temporada. 

POBREZA VISUAL 

Para uma série sobre catástrofe natural e mundo pós-apocalíptico, Paradise deixa sempre a impressão de certo descaso em criar um universo visual chamativo. O bunker e todo seu funcionamento raramente é explorado. Fora dali os planos quase sempre são fechados, o que impede de termos uma dimensão da tragédia e da destruição do planeta.  

O figurino é um catado de obras do gênero, sem nenhum tipo textura ou confecção mais trabalhada. Nem mesmo o contraste entre quem vive no abrigo e no exterior acaba sendo explorado, permitindo o choque entre os dois universos. 

Qual a cena memorável deste segundo ano de Paradise? Se você demorou a lembrar, não se surpreenda: realmente não há nada de marcante ou que, pelo menos, seja capaz de se destacar minimamente. Isso ajuda a ilustrar bem quão pobres são as direções dos episódios. Tudo parece feito no modo automático.  

Paradise se salvou no primeiro ano graças a um episódio fabuloso e ao competente elenco. Desta vez, não sobrou praticamente nada. Dan Fogelman terá que reinventar a série caso não queira o cancelamento em breve.