Então, leitor… Sabe aquela subidinha de nível que representou o terceiro episódio da temporada final de The Boys? Foi algo passageiro, um fogo de palha, um incêndio pequenino criado pela Luz-Estrela. Neste quarto episódio, “Rei do Inferno”, voltamos a alguns dos problemas que tëm afligido a série: tempos mortos, velhos conflitos sendo repetidos porque os roteiristas do programa não parecem mais ser capazes de criar novos, e o sentimento de que um seriado que já foi divertido agora começa a ficar penoso de se acompanhar.

Falando na Luz-Estrela, vamos aproveitar e começar por ela: uma das linhas narrativas deste quarto episódio mostra a Annie visitando os pais em busca de um conforto após os estressantes últimos dias. O irmão dela sofreu lavagem cerebral total da Academia do Capitão Pátria, então esse núcleo acaba reencenando aquela cena de X-Men 2 (2003) na qual o Wolverine e alguns alunos da escola buscavam refugio na casa de um deles, e havia o momento constrangedor da família descobrindo o que são mutantes e a polícia acabava se envolvendo. 

Tudo isso acaba parecendo vazio emocionalmente: Erin Moriarty já teve oportunidades na série para demonstrar seus talentos de atriz, mas aqui nem ela consegue fazer funcionar a cena em que admite ao seu pai temer pelo Hughie, a quem ela ama tanto e blá blá blá… Sinceramente, a série está a quatro episódios do seu final e ainda perde tempo retomando esse draminha? Assim fica difícil defender as opções dos produtores…

Em outro desenvolvimento, o pessoal da Vought resolve apostar todas as fichas em transformar o Capitão Pátria numa figura messiânica: O Profeta dos Estados Unidos. É uma ideia bizarra e promissora, evocando o grande problema do nosso mundo moderno de se misturar religião com política – mas é fácil perceber, hoje, que se uma figura superpoderosa como ele existisse de verdade, iria ter várias igrejas adorando-o. Vamos ver o que sai daí nos próximos episódios, mas por enquanto essa ideia é verdadeiramente intrigante, e aqui possibilita à ótima atriz Valorie Curry ter uns bons momentos como Espoleta.

E por fim, todo mundo vai ao Forte Harmony em busca do V1. O nome é irônico, claro, porque nossos protagonistas, e depois o Capitão Pátria e o Soldier Boy, vão descobrir que o lugar está tomado por esporos que despertam agressividade nas pessoas. O roteiro inclui aí uma piada com a série The Last of Us, mas o roteirista aqui devia ter um pouco mais de senso crítico ao zoar com uma série que, apesar dos problemas da sua segunda temporada, ainda está melhor que The Boys…

Enfim, de novo para uma série que está a poucos episódios do fim, todo mundo fica um tempão perdido nos corredores escuros do forte à procura do McGuffin da vez, e discutindo entre si. Ou melhor, repisando as velhas brigas: Bruto vs Hughie, Capitão Pátria vs seu pai… Aliás, o fato desses dois irem a pé até o forte é uma forma muito artificial de dedicar mais tempo ao conflito entre eles. No fim, o Capitão Pátria sofre um pouco, Bruto é mais um personagem a dizer que ele nunca será feliz apesar de todos os seus poderes, e tudo se resolve de uma forma bizarra ao estilo The Boys.

É até possível supor que este episódio se concentra mais em cenas de diálogos e em poucos cenários com o objetivo de poupar o orçamento para os episódios finais, que é onde geralmente ocorre toda a agitação. Mesmo assim, isso não é desculpa para a velha “encheção de linguiça”, ou para cenas artificiais que nem o elenco carismático consegue salvar desta vez. No fim das contas, ninguém consegue achar o bendito V1, e exceto por alguns momentos pontuais, não descobrimos nada de novo sobre os personagens da série, nem nada de novo é feito com eles. 

“Rei do Inferno” é mais um episódio morno de The Boys, enfadonho e decepcionante depois do promissor capítulo anterior. Pouca coisa na trama avança, e o trabalho com os personagens também não inova. Chegamos ao meio da temporada final e a série parece estar desperdiçando um tempo precioso. Resta torcer para que os roteiristas tomem um composto V nesse restante da temporada, porque no momento a série anda sem poderes.

Autor

  • Ivanildo Pereira

    Jornalista, professor de cinema em cursos pelo Cine Set e crítico associado à Abraccine. Começou a escrever sobre cinema após fazer o curso Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica, do crítico Pablo Villaça. Literatura, música e cinema são seus maiores interesses.

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