Entre luzes, silêncios e fantasias, Veneno para as Fadas expõe o momento em que a infância deixa de ser refúgio – e se torna terreno de ruína.
Em A Hora do Mal (2025), a narração de Scarlett Sher apresenta Alex, vivido por Cary Christopher – a única criança entre as 17 que desapareceram e retornaram. A trilha de Zach Cregger, Hays Holladay e Ryan Holladay cresce enquanto o filme estabelece o impacto do evento na cidade, mas sobretudo fixa um ponto de vista: o infantil. A montagem organiza o mundo a partir desse olhar – fragmentado, confuso, mas coerente à sua própria lógica.
Em Veneno para as Fadas, Carlos Enrique Taboada radicaliza esse princípio ao transformar crianças em vetores da fantasia. Interpretadas por Ana Patricia Rojo e Elsa María Gutiérrez, suas personagens habitam um espaço onde crueldade e inocência nunca se separam por completo. O perturbador está nessa fusão: descobrir o mundo é também aprender a distorcê-lo.
O maneirismo mais marcante surge na fotografia de Lupe García, que oculta ou fragmenta os rostos dos adultos. Eles existem, mas não ocupam o quadro – tornam-se presenças secundárias diante da imaginação das crianças. Só ganham forma quando atravessados pela fantasia de Verónica, que encarna esse imaginário sombrio no olhar e nos gestos.
O que se desenha é o desvanecer do olhar infantil em favor de uma humanização precoce do mal. A fantasia, inicialmente mediadora, é corroída por uma violência cíclica que já não se contém no imaginário. Em certo ponto, tudo se torna real o suficiente para ser sentido – e a imagem reforça isso ao enquadrar as personagens como figuras diminutas diante dos espaços. O mundo é grande demais para aquilo que elas ainda tentam compreender.
Essa lógica se expande na iluminação. Os cenários permanecem claros, indiferentes ao horror. Não há escuridão como prenúncio: o mal não tem hora. Ele se infiltra no cotidiano, dissolvendo a separação entre fantasia e realidade.
Treze anos antes, O Espírito da Colmeia, de Víctor Erice, já operava nessa chave ao situar a infância nos ecos da Guerra Civil Espanhola. A imaginação não é fuga, mas ferramenta: organiza aquilo que ainda não pode ser nomeado. Esse é também um dos pilares do cinema de Guillermo del Toro, visível em Cronos, A Espinha do Diabo e em “O Labirinto do Fauno”, onde o fantástico intensifica – e não suaviza – o real.
No horror contemporâneo, a infância tende a ser reposicionada como vulnerável, mais vítima do que agente. Obras como Cidade dos Amaldiçoados, Anjo Mal, A Profecia, Sobrenatural e A Órfã funcionam como contraponto ao devolver à infância uma dimensão inquietante – onde a ausência de um senso claro de certo e errado move o horror.
Em Carlos Enrique Taboada, porém, essa ideia se radicaliza. Não se trata apenas de sugerir que o mal pode habitar a infância, mas de encarar que ele nasce com ela – diluído entre jogos, fantasias e descobertas. O horror revela, então, sua vocação mais essencial: um espaço onde tudo é possível e nenhuma inocência permanece intacta. No fim, Veneno para as Fadas expõe algo mais incômodo que a perda da fantasia – a constatação de que ela nunca esteve separada da realidade.













