Após o grandioso casamento de Euphoria, chegamos na metade da temporada da melhor forma possível. Com muita tensão, o quarto episódio explora a criação de expectativa, close-ups e bastante potência musical. Mesmo aspectos incertos como a trilha sonora e a história de Nate (Jacob Elordi) começam a fazer maior sentido, ajudando a estabelecer arcos narrativos mais complexos.

Tudo começa de volta à Rue (Zendaya) e como sua história pode ser mais sofrível. Agora ela enfrenta uma nova realidade: se tornar fonte sobre o tráfico de drogas para a polícia e evitar ser presa. Essa situação é explorada amplamente no episódio a fim de deixar o público cada vez mais preocupado com seu destino.

Mesmo sem uma arma apontada para a cabeça, Rue se encontra na situação de vida ou morte: ser condenada à prisão ou tentar enganar o cafetão Alamo (Adewale Akinnuoye-Agbaje). Todas as cenas entre os dois reforçam não apenas a posição de poder sobre a personagem de Zendaya, mas também a forma que é vista como mercadoria, moeda de troca e mais uma funcionária do prostíbulo por também se vendido para Alamo de certa forma.

No terceiro episódio falei sobre a necessidade de Euphoria em criar cenas memoráveis e isso se repete com êxito em mais um momento de aflição. O poker é uma máxima no cinema por seu teor acerca de mentira, unir isso a um jogo de câmera claustrofóbico e um diálogo eficaz resulta num ótimo momento de tensão da série. É tão bem pensado que novamente o personagem Bishop (Darrell Britt-Gibson) tem um destaque importante – e isso sem praticamente interromper o diálogo principal, pois ele mesmo age nas entrelinhas.

Essas minúcias simbólicas são a cereja do bolo para criar cenas marcantes. Nesse caso, o diálogo se desenrola num jogo de blefe, com a simbologia da última carta mudando o jogo para Rue, assim como a fala de Alamo muda todo diálogo até então. Estas escolhas reforçam o cuidado em manter os roteiros interessantes e bem estruturados.

Junto do trabalho dedicado na fotografia, a trilha sonora finalmente consegue vingar. Além da ausência de Labrinth, a mudança brusca do cantor à frente da trilha para o clássico Hans Zimmer causou uma estranheza justificada no público. E, além do fator novidade, reconheço haver momentos nos episódios anteriores que poderiam ser potencializados pela música, evidenciando certo problema com timing. Mas, nesse quarto episódio, a trilha é essencialmente uma protagonista em impor agonia, tensão e repulsa.

Em face de tantas qualidades e elementos bem trabalhados na série, torna-se muito frustrante ver a contínua exploração de mulheres para reforçar um ponto ou serem meros acessórios narrativos. No clube de striptease, Angel (Priscilla Delgado) foi uma personagem aprofundada minimamente – a qual eu até esperava que tivesse maior relevância para Rue – mas nesse episódio vemos outra personagem com nome genérico (Kitty) sendo explorada sexualmente somente para reforçar o impacto da série. Nesses momentos parece que Sam Levinson se preocupa mais em colocar um fetiche diferente em cada episódio do que com a narrativa de personagens como Jules (Hunter Schafer), Lexie (Maude Apatow) e Nate.

Sobre estes, Lexie e Jules fazem uma conexão fraca, mas que reforça aspectos simbólicos para Jules com a autoaceitação, sua obra e carreira intrinsecamente conectadas. Já Lexie aparece como a bússola moral ignorada – e isso vai de encontro com a moralidade sendo o caminho mais tortuoso e com desafios.

Nate tem um avanço significativo em sua trama: ele não explode da forma esperada, mas ainda é um desempenho muito bom do Jacob Elordi, prometendo uma nova perspectiva sobre o personagem. Maddy (Alexa Demie) e Cassie (Sydney Sweeney) entram numa narrativa quase que em piloto automático; a primeira não reage aos acontecimentos do episódio anterior e a outra incorpora tantos arcos que não conhecemos realmente sua personalidade.

Esse quarto episódio traz Euphoria de forma completa ao brincar com a expectativa do público e manter a tensão capaz de permear diferentes núcleos. Nesse ponto da temporada, os cenários já são bem delimitados, reforçando a ideia da estética estabelecida com sucesso. Falta agora se desprender de hábitos narrativos que não ajudam realmente a história e apenas reforçam estereótipos, apoiando a narrativa em diferentes abusos sobre o corpo feminino.