Léa Drucker tem sido uma dos principais nomes do cinema francês no Festival de Cannes após o fim da pandemia. A atriz, duas vezes premiada no César, integrou produções premiadas no evento como “Close” e ainda obras na disputa da Palma de Ouro como “Caso 137”. “A Vida de uma Mulher” marca o sétimo filme protagonizado por a ser exibido no Palais des Festivals desde 2023.
Desta vez, ela interpreta uma cirurgiã refletindo sobre a amor e envelhecimento durante uma crise. Tudo isso sendo observada por uma romancista que pretende usá-la como referência para um livro. Charline Bourgeois-Tacquet (“Os amores dela”) escreve e dirige “A Vida de uma Mulher” de forma episódica, trazendo constantemente contrapontos entre as escolhas da vida pessoal e profissional de sua protagonista e o quanto estas se interligam e compõe uma figura determinada e humana. Elementos tão complexo de serem delineados quando estamos falando de filmes que traçam retratos da trajetória feminina.
A narrativa busca apresentar um olhar atencioso e feroz sobre a vida de uma mulher aos 55 anos, endossando os possíveis dramas próprios de sua faixa etária. Em certa perspectiva, o filme prova o quão interessante pode ser o cotidiano feminino que não envolve maternidade, não está nem descobrindo sua feminilidade nem tampouco chegando ao final de carreira na terceira idade. Nesse sentido, “A Vida de Uma Mulher” ganha força quando nos joga nas tensões profissionais do ofício médico administrativo de Gabrielle (Drucker) e na espiral que suas escolhas pessoais a arremessam.
O curioso é observar, dentro desse cenário, como cada elemento na vida de Gabrielle alimenta a complexidade envolta da existência feminina. No seu trabalho, por exemplo, ela está constantemente diante de desafios e de uma intensidade que acalora sua paixão pela medicina. Já sua vida pessoal, parece uma vertigem. O casamento é insosso, o marido parece se adequar a vida que ela almeja — mas sem deixar de cutucá-la quando se sente acuado. Isso, porém, não é o suficiente para que a relação entre eles não seja, de certa forma, anêmica, uma vez que sobra o vazio do lar em detrimento da passividade do companheiro. Além disso, a médica precisa lidar com a mãe em um estágio avançando de Alzheimer.
Gabrielle encontra a saída para o turbilhão pessoal em um relacionamento queer intergeracional, com uma escritora que vem observar seu trabalho para compor o novo livro. A presença de Frida (Mélanie Thierry) em sua vida traz um contraponto interessante e salienta mais uma vez o quanto a diretora Bourgeois-Tacquet busca oferecer certa complexidade a jornada feminina, uma vez que Gabrielle se atrai pela vivacidade e a admiração que vê sobre si nos olhos de Frida. Ouvi em um debate sobre produção cinematográfica feminina que é complexo ser uma mulher que ama outra mulher e o roteiro consegue exemplificar como isso acontece. Se por um lado, o romance de Frida e Gabrielle oferece a vida da médica certo frescor, a deixa inerte para lidar com o desmoronamento de outros ângulos do seu cotidiano como a mãe e o trabalho. O amor pode ser leve, mas a endurece com quem não faz parte do seu ninho romântico.
Léa Druker confere a Gabrielle a rigidez e a vulnerabilidade que a personagem pede. Mantendo uma posição imperiosa, de quem comanda sua própria vida, mas também permitindo que as rachaduras de quem precisa esconder a sua dor transpareçam de maneira sutil e quase imperceptível. Ao lado da fotografia e a edição, vemos como essa parceria reflete o dia de Gabrielle, seus movimentos e principalmente as pequenas mudanças e expressões que Druker emite e compõem as várias camadas da personagem.
O que se percebe é o quanto “A Vida de Uma Mulher” busca trazer um estudo sobre a jornada feminina, enfatizando a tridimensionalidade de sua protagonista e o passeio emocional que ela faz para administrar todas as situações as quais é imposta. Nesse processo, a produção lembra muito “A Número um”, da também francesa Tonie Marshall, na forma como mulheres fortes também possuem suas fragilidades e como frequentemente são colocadas como difíceis por não se enquadrarem ao que o padrão patriarcalista traça como ideal. Gabrielle, por mais ímpeto que possua, não consegue fugir desse padrão, mesmo aos 55 anos de idade.













