Caio Pimenta analisa o que pode significar o prêmio honorário para Glenn Close a ser entregue pela Academia neste ano.
AS ‘QUASE’ VITÓRIAS
Se há algo que incomoda 11 entre 10 cinéfilos é o fato de Glenn Close ainda não ter levado o Oscar. A estrela já concorreu oito vezes e bateu na trave, pelo menos, em três ocasiões.
Em 1988, por exemplo, a estrela protagonizou “Atração Fatal”, suspense icônico daquela década em que faz um arquétipo que se popularizou nos anos seguintes. O desempenho brilhante, infelizmente, não foi suficiente para superar Cher em uma atuação correta por “Feitiço da Lua”.
Na temporada seguinte, Glenn Close brilhou em “Ligações Perigosas”. Mesmo a maior atuação da carreira dela não foi suficiente para a Academia prestigiá-la; sorte de Jodie Foster, excelente em “Acusados”
Já no Oscar 2019, o cenário foi de uma crueldade absurda: Glenn Close liderou grande parte da temporada ao conquistar o Globo de Ouro, Critics Choice e o SAG por “A Esposa”. Tudo apontava finalmente para a primeira vitória. Faltou combinar, entretanto, com Olivia Colman: ao vencer o Bafta, a britânica se posicionou como zebra e acabou levando o Oscar.
Apesar da indicação por “Era uma vez um Sonho” em 2021 e a presença superanimada com direito a dancinha e tudo, a sensação é de que ficou um clima esquisito entre a Academia e a Glenn Close após a derrota de “A Esposa”. Chegava até a soar constrangedor colocá-la para disputar e perder de novo e de novo, inclusive, a ponto de ampliar o recorde de maior derrotada da história do Oscar entre as mulheres – Peter O´Toole também foi indicado oito vezes sem ganhar.
Talvez isso explique a esnobada pela elogiada atuação em “Vivo ou Morto”, terceiro filme da série “Entre Facas e Segredos”.
A HOMENAGEM NO GOVERNORS AWARDS
Para o Oscar 2027, há uma remota possibilidade de indicação à atriz coadjuvante por “La Bola Negra”, porém, Penélope Cruz parece mais cotada para ficar com a vaga pelo musical espanhol.
Neste contexto, surge a estatueta honorária prevista para ser entregue no Governors Awards no dia 15 de novembro. Este é um movimento muito claro da Academia de se precaver, afinal, Glenn Close completou 79 anos em 2027, logo, ela está muito mais próxima do final da carreira do que na fase inicial ou metade.
Garantir um prêmio pelo conjunto da obra evita que um dos maiores nomes da história de Hollywood nunca tenha recebido o reconhecimento devido da entidade.
HOMENAGEADOS PREMIADOS
A estratégia, porém, deixa a dúvida se um dia Glenn Close realmente vai ganhar a estatueta que realmente merece em uma edição regular. Ao longo da história dos homenageados pela Academia no Governors Awards, apenas cinco artistas conseguiram ser premiados com o Oscar em seguida.
Estrelas de clássicos como “12 Homens e uma Sentença” e “As Vinhas da Ira”, o Henry Fonda recebeu o prêmio pelo conjunto da obra em 1981. No ano seguinte, concorreu e venceu Melhor Ator por “Num Lago Dourado”. Meses depois, o astro faleceu. O estado de saúde fragilizado, conhecido por todos em Hollywood, certamente contribuiu para todas estas homenagens da indústria.
O genial Paul Newman somava seis indicações a Melhor Ator quando venceu o Oscar honorário em 1986. Igual Henry Fonda, na edição seguinte, o astro venceu a categoria por “A Cor do Dinheiro”, de Martin Scorsese.
O compositor Ennio Morricone precisou de uma estatueta honorária para finalmente ser reconhecido pela Academia em 2007. Nove anos depois veio a conquista por “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino. Foi aplaudido de pé em um dos momentos mais emocionantes do Oscar na década passada.
Com uma relação turbulenta com a Academia marcada por esnobadas inacreditáveis, Spike Lee conquistou uma estatueta pelo conjunto da obra em 2015. Somente quatro anos depois, o maior cineasta negro da história dos EUA ganhou Melhor Roteiro Adaptado por “Infiltrado na Klan”.
Por fim, Hayao Miyazaki, gênio do Studio Ghibli, foi homenageado em 2014 pela Academia. Nove anos depois, o diretor superou “Homem-Aranha – Através do Aranhaverso” para ganhar Melhor Animação por “O Menino e a Garça”.
Vale ainda lembrar do caso do Jerome Robbins: na edição de 1962, ele conquistou tanto um prêmio em homenagem ao trabalho dele de coreógrafo nos cinemas como também de Melhor Direção ao lado do Robert Wise por “Amor, Sublime Amor”.
Um ponto importante aqui é observar como os artistas que conseguiram vencer o Oscar mesmo após premiados pelo conjunto da obra são todos homens. Isso reflete a predominância masculina na indústria e, principalmente, como as melhores oportunidades para mulheres acontecem, quase sempre, quando são mais jovens.
Se você duvida ou acha que seja uma grande bobagem, saiba que até hoje nenhuma atriz premiada pelo conjunto da obra conseguiu ser indicada novamente no Oscar. Verdade seja dita também que muitas delas já eram bem idosas e no fim da carreira, mas ainda assim é um contraste grande quando temos os exemplos de Paul Newman e Henry Fonda.
VITORIOSOS MAIS NOVOS
Por outro lado, o Governors Awards vem prestigiando estrelas nas casas dos 60 anos nas últimas edições ou em momentos mais ativos da carreira, permitindo a possibilidade de uma futura indicação.
Indicado apenas uma vez por “Pulp Fiction”, Samuel L. Jackson recebeu o Oscar honorário em 2022. De lá para cá, o ator já esteve em sete filmes, incluindo, “Piano de Família”, pelo qual chegou a ser cogitado em Ator Coadjuvante. A prioridade ao Universo Marvel, porém, o afasta de maiores chances de indicações.
Angela Bassett ficou muito perto da vitória no Oscar 2023 com “Wakanda Forever”, mas acabou atropelada por Jamie Lee Curtis do fenômeno “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”. Com 67 anos, a estrela pode aparecer em breve na festa.
Tom Cruise foi homenageado no ano passado com um Oscar honorário. A Academia imaginava que o maior astro de Hollywood dos últimos 50 anos seguiria investindo nos filmes de ação, o que dificilmente o colocaria na corrida competitiva. Cruise, entretanto, resolveu se juntar a Alejandro González Iñarritu em “Digger” e chega como um potencial candidato ao prêmio de Melhor Ator no ano que vem.
A presença no próximo filme “Jogos Vorazes”, em “La Bola Negra” e nas séries mostram como Glenn Close segue ativa na indústria. Por outro lado, a aguardada a nova versão de “Crepúsculo dos Deuses” parece que não sairá do papel tão cedo.
A estatueta honorária é importante e marcante para Glenn Close; uma homenagem mais do que merecida para uma gigante do cinema. Ainda assim, ela deveria ter vencido nas disputas regulares. Espero que aconteça, ainda que considere bem difícil nesta altura do campeonato.





















