Um dos filmes mais incômodos que assisti esse ano foi “Se a Rua Beale Falasse”. Lembro que, enquanto o assistia, pensava na importância do diretor Barry Jenkins para a produção cultural contemporânea.  Em “Olhos Que Condenam”, a inquietação despertada por Jenkins inflama: a produção da Netflix toma toda agonia, racismo e injustiça apontadas na história de Fonny e o eleva a níveis aterrorizantes.

Dividida em quatro episódios, “Olhos que Condenam” é produzida, roteirizada e dirigida por Ava DuVernay (“A 13ª Emenda” e “Selma”) e relata como cinco adolescentes (quatro negros e um latino) do Harlem foram condenados por um estupro cometido, em 1989. O caso ficou internacionalmente conhecido como “Os Cinco do Central Park”. Cada um dos episódios se debruça em mostrar como toda situação se desenvolveu, humanizando os meninos e suas famílias, além de destacar a incoerência e o racismo da mídia e do sistema penal norte-americano. Assim, acaba sendo difícil assistir a produção sem se sentir molestado de alguma forma.

“Olhos que Condenam” aponta o quanto o racismo estrutural é o motivo que guia toda a investigação e o processo. Pode-se observar que Ava DuVernay exemplifica a discussão apresentada em “13ª Emenda” ampliando os debates levantados. No primeiro episódio, ela apresenta os garotos – Antron McCray, Kevin Richardson, Raymond Santana, Yusef Salaam e Korey Wise –, suas vidas normais e a discrepância nos interrogatórios, basicamente preparando para o público presenciar a arbitrariedade do sistema penal com os negros. Chamo de discrepantes os interrogatórios, porque todo o contexto – a ausência dos responsáveis e de advogados – deixa o questionamento se aconteceu dessa maneira e como isso foi permitido. A direção é precisa em colocar com intensidade e agilidade a maneira como a polícia submete cada um dos garotos a abusos físicos e morais.

A montagem atrelada à fotografia de Bradford Young cria um tom claustrofóbico e apavorante. A escolha por planos fechados e ambientes escuros põe o espectador junto aos garotos, o impedindo de desviar os olhos da tortura e da sensação de pânico que os domina. Há uma tensão no ar. Há um horror constante que começa na cena e se estende a quem a assiste. Conforme os episódios avançam, esse clima perturbador não se dissipa. Pelo contrário, vai se tornando cada vez mais sólido.

‘When They See Us’

A partir de então, é possível compreender como a narrativa dialoga melhor com seu título original “When They See Us” (‘Quando eles nos vêem’, em tradução literal). Em outras palavras, quando o homem não branco, classe média é visto? Quando eles o enxergam? Mais uma vez, Ava DuVernay amplifica o debate já estabelecido em sua filmografia. Aqui é a personagem de Felicity Huffman – Linda Fairstein –, e posteriormente, a mídia, quem melhor exemplificam essa visão ao culpar os meninos desde o primeiro momento por estarem em uma área nobre de Nova York, a qual sua cor de pele não permite pertencer.

Nesse contexto, o julgamento da mídia é um espetáculo a parte. É evidenciada a maneira como a imprensa não se preocupa em apresentar os dois lados da história ou as divergências evidentes do processo, mas se calcar em abordagens distorcidas que visam punir o lado mais fraco da corda social. O recado é claro sobre isso ao apresentar a posição de Donald Trump no caso. Em 1989, antes de ser cogitado para a presidência norte-americana, ele gastou US$ 85 mil em quatro anúncios de jornal pedindo o retorno da pena de morte para esse caso e incitando o povo a isso. “Olhos que Condenam” é enfático em trazer seus pronunciamentos na época e indicar a forma deturpada como ele enxerga a realidade ao afirmar que “negros têm muitos privilégios”.

O injusto sistema social

Em contrapartida a essa colocação, estão as mães que acompanham a situação dos filhos, sofrendo ao seu lado e enfrentando os distúrbios familiares e sociais causados pela sentença. Elas tentam se manter fortes mesmo estando destruídas e desestabilizadas, mais um reflexo da desigualdade social.

E isso também aponta para uma crítica ao sistema penal que se refere à reintegração social do ex-presidiário, afinal, a maior consequência de quem foi condenado é que o Estado leve sua vida para sempre. Nas palavras de Raymond Santana: “Não sou cidadão: sou sempre uma metade, uma pertence e a outra não”.

É interessante que para apresentar esse último ponto, há duas abordagens: a primeira é destacar como retomar a vida depois da prisão – algo pouco visto em produções audiovisuais – e a segunda é o episódio dedicado a Korey Wise (Jharrel Jerome).

A história de Wise é uma das mais impactantes e revoltantes, principalmente pelo motivo dele ter ido a delegacia e o que o fez ser preso. Por ter 16 anos, ele foi enviado a uma prisão adulta e passou 11 anos cumprindo pena. Nesse ínterim, o contato com a mãe e qualquer suporte financeiro se tornam inviáveis. A construção visual de sua condição é extenuante e profunda. A entrega de Jerome é preciosa, intensa. Não seria surpresa ver seu nome em premiações e produções futuras.  O personagem é levado a exaustão e o público que o acompanha, também.

O problema é que, ao apresentar a sua trajetória, há uma perda de ritmo na narrativa, acabando por prejudicar o ápice da conclusão da história. Por mais surreal e verdadeiro que o crime tenha se solucionado como foi apresentado na série, a maneira como isso foi roteirizado e montado cria um tom inautêntico, irreal. Quebrando um pouco da emoção e do horror construído até o momento.

Aterrorizante e visceral, o que é mais interessante em “Olhos que Condenam” é a sua necessidade nos dias atuais. Apesar de se passar em momentos específicos dos últimos 30 anos, o seu contexto e subtexto são imprescindíveis para conscientizar e dar lugar de fala a quem o sistema social busca oprimir. Duvernay escancara e denuncia o racismo e a injustiça do sistema penal norte-americano, tornando esta uma produção que precisa ser apreciada e discutida. Na esperança que a revolta e reflexão causada não sejam apenas momentâneas, mas comecem a causar as mudanças que se precisa.

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