Em “Small Axe”, chegamos à semana do episódio que rendeu a John Boyega o Globo de Ouro de Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme. Intitulado “Vermelho, Branco e Azul”, justamente as cores presentes na bandeira do Reino Unido, acompanhamos a saga de Leroy Logan (Boyega), um cientista afro-caribenho que decide entrar para a polícia metropolitana depois que seu pai é alvo de uma ação truculenta da polícia.

Antes de mais nada, preciso salientar que esta é uma história verídica: Logan é um ex-policial condecorado pelos anos de serviço e membro fundador da Black Police Association. Interessante e curiosa é a decisão de McQueen para contar essa narrativa. Apesar de ter a presença marcante de Boyega, o espaço cenográfico e a câmera de Kirchner são fundamentais para compreendermos os sentimentos pouco expostos do protagonista.

Combater o sistema por dentro

O diretor mostra como a decisão do personagem de combater o sistema por dentro afetou suas relações e, consequentemente, a forma de ler e lidar com o mundo. Isso pode ser visto por meio das diferenças visuais nos dois momentos narrativos que constrói “Small Axe: Vermelho, Branco e Azul”. Na primeira parte, por exemplo, percebemos o quão abatido Leroy está por trabalhar no laboratório, quando a câmera se distancia para mostrá-lo sozinho em um ambiente totalmente branco e apático. No entanto, contrapondo-se a isso estão as cenas no núcleo familiar, importantes para enxergarmos o comportamento conservador do pai e o carinho que seus familiares dedicam ao protagonista.

Conforme ele vai atuando na polícia, porém, esses encontros familiares vão diminuindo até o ponto de sumirem por completo. Não sabemos, por exemplo, como fica sua relação com a esposa e nem o vemos acompanhar o crescimento de seu filho. Visualmente isso é explicito em planos mais fechados nele e na coloração do capítulo que vai tendendo a cores mais frias e próximas do uniforme da polícia. No meio dessa construção imagética, dois pontos se ressaltam: a trilha sonora que nos permite localizar a história no tempo e a atuação de Boyega.

Boyega e os referenciais

O ator britânico que parece bem acostumado a interpretar agentes da lei – “Detroit em Rebelião” e a mais recente trilogia “Star Wars” – é o coração da trama. É perceptível, principalmente no segundo momento da narrativa, a raiva e frustração que o acompanham ao mesmo tempo em que há uma fina camada de esperança em suas palavras e ações. A ambição do personagem de tentar mudar o sistema juntando-se a ele me fez refletir em duas produções recentes: “O Ódio que Você Semeia” e “Little Fires Everywhere”.

De certa forma, “Small Axe: Vermelho, Branco e Azul” distancia-se dos outros e segue uma linha mais previsível. Enquanto o primeiro externava resistência e o segundo a cultura, este me deixou apreensiva, em certos momentos, devido ao racismo velado do sistema policial; o mesmo sentimento despertado pelos olhares destinados a Kerry Washington na minissérie de Liz Tigelaar. Aliás, há um quê da resistência da personagem de Washington em Logan e vice-versa. Infelizmente, esses olhares são mais reais do que podemos imaginar.

Em paralelo a isso, a visão do pai de Logan (Steve Toussaint) e do restante da comunidade negra em vê-lo ser um policial, me fez lembrar um diálogo do personagem de Common em “O Ódio que Você Semeia” no qual diziam a ele que um policial negro sempre seria visto com desconfiança pelos seus e como inferior pelos colegas de profissão. O distanciamento visual dos familiares e amigos e as respostas negativas as tentativas de promoção de Logan exemplificam o quão tangível é o diálogo do filme de Tillman Jr.

Essas são algumas questões levantadas para reflexão do público neste capítulo. McQueen constrói uma narrativa atraente e realista, provando que é preciso alguém dar o primeiro passo rumo a revolução, mas que uma andorinha só não pode mudar um sistema inteiro. Nem mesmo com a vitalidade de John Boyega.

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