Levando em conta todo o conteúdo de super-heróis disponível hoje no terreno das séries de TV e streaming – e é bastante – ainda há muito espaço para o heroísmo, digamos, tradicional: embora brinquem com formatos e gêneros e adicionem algumas complexidades aqui e ali, os heróis de WandaVision e Falcão e o Soldado Invernal, do Marvel Studios, são “do bem” e defendem a justiça e a liberdade contra as forças do mal. E as produções do canal CW com os heróis DC fazem isso há anos, também. Mas tem ganhado força uma visão mais “cinza” do heroísmo… Em séries como Titãs, The Umbrella Academy, a recente animação Invincible e, claro, The Boys, o mito do super-herói é questionado: eles são mostrados sob uma ótica sombria e seus comportamentos não raro beiram a neurose, a psicopatia ou o fascismo. The Boys, obviamente, é o ápice dessa visão, com a série ironizando não só as figuras de capa e roupa colante, mas também toda a indústria que se criou em torno delas nos últimos anos, graças ao cinema.

O Legado de Júpiter chega agora para se somar a essa tendência. Quer dizer, mais ou menos… Produção da Netflix, é a primeira série do que virá a se tornar o “Millarworld”, ou seja, o universo televisivo baseado nas HQs do roteirista escocês Mark Millar. Esse é um sujeito esperto: Millar já trabalhou para a DC e para a Marvel – onde criou trabalhos como Guerra Civil e O Velho Logan, cujas ideias mais tarde serviram de base para filmes bem sucedidos – e depois partiu para a produção autoral, publicando suas obras sobre o selo Millarworld. O sucesso de suas adaptações para o cinema – O Procurado (2008), Kick-Ass (2010) e Kingsman: Serviço Secreto (2015) – levou Millar a um contrato milionário com a Netflix. Ele produz muito, colocando seu toque pessoal irreverente e subversivo em narrativas clássicas de super-heróis e fantasia. Muitas das suas obras são para ler de uma sentada só. Você se diverte, reconhece que o elemento X saiu daquela HQ famosa, o elemento Y saiu daquele filme dos anos 1980, e dez minutos depois de ler você já esqueceu sobre o que era.

O Legado de Júpiter, a série, é mais ou menos assim também. Mas sofre por uma inconstância, uma indecisão, aparente nesta primeira temporada – é praticamente inevitável que haverá outra – sobre que tipo de história quer ser. Ao longo dos oito episódios acompanhamos duas histórias, na verdade. No presente, vemos a família super-heróica e problemática de Sheldon Sampson (vivido por Josh Duhamel) e os demais superpoderosos às voltas com um mundo onde o heroísmo é complicado. Sampson é o Utópico, o análogo do Superman na série – ele até mora numa fazenda – e o grupo de heróis é a União, o análogo da Liga da Justiça. Em um confronto com um super-vilão, o filho de Sampson acaba cometendo um assassinato brutal, um ato que, para surpresa do virtuoso Utópico, acaba sendo aprovado por 78% da população dos Estados Unidos, uma nação dividida e raivosa igual à do nosso mundo real.

Já a outra história é ambientada no contexto pós-Grande Depressão de 1929. Descobrimos como Sampson e seus aliados conseguiram seus poderes e se tornaram os maiores super-heróis do mundo. E… Essas duas histórias não poderiam ter tons mais diferentes. A história do presente é sombria e tenta ter densidade psicológica. Sampson e seus filhos adolescentes estão longe dos Incríveis, com certeza… Aqui, temos violência, palavrões e cenas de sexo. Já a do passado tem glamour e é repleta de elementos clássicos de histórias de fantasia e da literatura pulp: coordenadas misteriosas, uma expedição a uma ilha desconhecida… Até a recriação da famosa capa da Action Comics com o Superman entra no meio.

PELO MEIO DO CAMINHO

Sabemos que, nos bastidores, O Legado de Júpiter teve alguns problemas. Steven S. DeKnight, da série Spartacus e da primeira temporada de Demolidor da Marvel/Netflix, estava comandando a produção como showrunner, mas saiu no meio alegando as velhas “diferenças criativas” e foi substituído por Sang Kyu Kim. Talvez isso ajude a explicar as mudanças de tom e as próprias hesitações na história, mas o seriado também tem outros problemas que diluem seu impacto.

É como se a série quisesse fazer as duas coisas: mostrar uma história de heróis tradicional e a sua desconstrução, mas, ao tentar ser ambiciosa demais acaba fazendo apenas uma delas razoavelmente direito – leia-se, a história do passado. Fica no meio do caminho: nem é legal o suficiente como narrativa de heróis, nem é irreverente o bastante para subvertê-la.  Com o tempo, o dilema dos heróis e seu Código de retidão encarnado pelo Utópico, no qual matar é impensável, acaba não sendo resolvido e a temporada se conduz para uma porradaria tradicional de filme super-heróico. Se a desconstrução com o tempo vira o normal, então perde sua força como desconstrução.

Também é curioso notar como o elenco da série, que deveria servir de âncora para o espectador, acaba deixando muito a desejar de uma forma geral. Os atores jovens parecem todos saídos das piores temporadas de Malhação – algumas expressões faciais do elenco jovem ao usar seus poderes despertam risadas involuntárias – e os mais experientes, Duhamel e Leslie Bibb que faz a Lady Liberdade, esposa do Utópico, sempre foram dois intérpretes muito “peso-pena” e aqui, não conseguem imbuir seus personagens de nada além do básico. E as perucas não ajudam… O máximo que ambos conseguem fazer para cativar o telespectador é uma cena em que o sexo super-heróico do casal é interrompido quando o Utópico resolve interceptar um cometa no meio da transa (!). De todo o elenco, os únicos que realmente se destacam e se mostram interessantes são Ben Davis como Walter, o irmão de Sheldon – ele realmente parece uma figura dos anos 1930 nos segmentos do passado – e Ian Quinlan como Hutch.  Mas quando um elenco quase inteiro se mostra aquém numa produção, aí é um problema também de direção…

Há potencial em O Legado de Júpiter, e as questões de bastidores, sem dúvida, interferiram no resultado final. Por outro lado, é meio difícil de engolir que os heróis tenham de demorar oito episódios para decifrar o mistério da temporada, ou impossível de notar que, em sua proposta, a série já nasce meio atrasada num panorama televisivo no qual existe The Boys com seu elenco matador, efeitos visuais e valores de produção muito superiores, e sua vontade de surpreender o espectador. Enfim… estamos no Millarworld. Será que as próximas adaptações, e a próxima temporada, se sairão melhor em meio ao lotado mundo super-heróico da TV moderna? Aguardemos as próximas edições…

‘Carrie, a Estranha’: Mike Flanagan transforma a fúria adolescente na era digital

“Carrie” se constrói entre erros e acertos; Flanagan consegue atualizar a trama e repaginá-la, mas para isso sacrifica algumas tramas.

‘Habeas Corpus’: drama jurídico perdido em conveniências

Habeas Corpus funciona melhor quando seus atores mais experientes conseguem emprestar complexidade a personagens que o roteiro nem sempre sabe desenvolver.

‘Lanternas’ Episódio 2: série cresce ao deixar de lado o mistério do ‘quem matou’

Basta apostar na divertida investigação da morte dos alienígenas e ir trazendo os personagens clássicos do Lanterna Verde que estará em ótimo caminho.

‘Lanternas’ – Episódio 1: o que está acontecendo com a HBO?

Não bastasse 60 minutos para lá de mornos, Lanternas apresenta o gancho mais batido para fisgar o público: saber quem matou tal personagem.

‘Cabo do Medo’ (2026): o monstro por trás de Max Cady cria versão de alto nível

Cabo do Medo entende que atualizar uma história não é simplesmente trocar uma época por outra, mas observar o que mudou naquilo que chamamos de família, justiça e proteção.

‘O Senhor das Moscas’: excessos tiram brilho da essência da série

Adaptação do clássico livro de William Golding, feita pelo mesmo produtor de Adolescência, é esvaziada pelo excesso de afetação.

‘O Urso’ – 5ª Temporada: despedida aponta sinais claros de desgaste da série

Poucas séries recentes foram tão avassaladoras quanto O Urso. Desde sua estreia, a criação de Christopher Storer encontrou na cozinha não apenas um cenário para suas histórias, mas uma extensão da mente de seus personagens. Os pratos voltando para serem refeitos, os...

‘Eu Vou Te Encontrar’: suspense da Netflix seria bem-vindo no Supercine

Minissérie da Netflix com a marca registrada do autor Harlan Coben parece um Supercine esticado por oito episódios.

‘O Segredo de Widow’s Bay’: uma cidade tão fascinante quanto seus segredos

O Segredo de Widow’s Bay demonstra compreender que histórias sobrevivem justamente porque nunca são completamente resolvidas.

‘Spider Noir’: Homem-Aranha à altura dos filmes de Sam Raimi

Por trás dos mistérios e dos tiroteios, Spider Noir entende algo que muitas adaptações do personagem parecem ter esquecido.