Em Vento Seco, do diretor Daniel Nolasco, a emoção é o mais importante. E essa emoção é o desejo… No filme, acompanhamos o protagonista Sandro, interpretado por Leandro Faria Lelo. Ele trabalha para uma grande companhia de armazenamento de grãos no quente interiorzão de Goiás. E ele é gay.

Ao longo do filme, o vemos se envolvendo com um dos colegas de trabalho e fantasiando sobre outro rapaz recém-chegado na cidade. O clima seco do lugar mantém seus lábios permanentemente rachados. Vemos Sandro no trabalho enfadonho, nadando na piscina pública, jogando futebol com os colegas, e mantendo seu verdadeiro eu, seu tesão e seus sentimentos, sob a superfície.

É um personagem retraído e quieto, por isso, a câmera de Nolasco e do seu diretor de fotografia, Larry Machado, falam por ele, expõem o seu interior. E o resultado impressiona: Vento Seco é um filme altamente imagético, com fortes cores no visual – a cena do encontro de Sandro com Ricardo (Allan Jacinto Santana) na floresta é bonita demais – e neon, criando uma estética quase oitentista. A trilha sonora eletrônica também contribui para essa sensação.

CORPOS E SEUS ATOS POLÍTICOS

E por dar vazão aos sentimentos e ao psicológico do seu protagonista, o filme também explora uma sexualidade poderosa, com cenas de sexo gay filmadas com realismo e entrega por parte dos atores. Vento Seco também explora imagens fetichistas e se configura praticamente como uma ode ao tesão. É mais uma obra de destaque no panorama LGBTQIA+ do cinema brasileiro atual, que explora sexualidade sem pudores e de maneira libertária. Claro, sexualidade sempre esteve presente na produção cinematográfica brasileira, mas aqui o enfoque gay se alia à estética do filme e ambos são primordiais para a experiência, com a câmera se focando nos corpos num jogo de futebol ou explorando um delírio sadomasoquista.

Não é exagero dizer que em algumas cenas de Vento Seco, a câmera praticamente lambe os personagens em cena. Essa ênfase, no entanto, cobra seu preço porque, com 1h50, Vento Seco não segura o ritmo completamente e algumas cenas na segunda metade já começam a parecer repetitivas. Não é um filme de narrativa tradicional, claro, mas a ênfase nos sentimentos submersos e no desejo não realizado leva a um segmento do filme em que ele parece andar por meandros, sem rumo.

Mas já perto do fim, Vento Seco reencontra o foco e se conclui de forma bela, poética e 100% de acordo com a experiência sensorial construída desde o começo. Daniel Nolasco encerra o filme incluindo uma pitada de amor em meio ao tesão. Não é um filme de teor político em si, mas só por expor corpos e relacionamentos homossexuais de maneira aberta, e fazê-lo no Brasil atual, ele já se configura numa espécie de ato político. Um ato de libertação e de elogio ao desejo e que, por mais que forças atuem para reprimi-lo, ele não pode ser negado. Como indica a canção de Maria Bethânia que serve como trilha da cena final.

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