“Atlântida”, obra exibida na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, não é um filme sobre o quê, mas sobre como. Há um personagem, que tem objetivos, coadjuvantes, antagonistas, viradas na história, mas isso não é o que importa. Yuri Ancarani, que assina direção, roteiro, fotografia e montagem, está bem mais interessado na atmosfera criada em tela, com suas cores vibrantes, músicas destacadas e belas paisagens da cidade de Veneza e arredores. O local, inclusive, parece ser o personagem mais central na história.

Acompanhamos Daniele (Daniele Barison), um jovem que trabalha com agricultura, mas se realizada mesmo quando está em sua lancha – ou barchinos, nome dos barcos a motor da região. Ele vive em Sant’Erasmo, uma ilha às margens de Veneza. “Atlântida” se concentra em explorar essa cultura bem particular dos jovens da região, o culto aos barchinos.

Eles passeiam pelas águas, dão festas nos barcos, apostam corrida, transam, dormem ou até mesmo apenas passam um tempo ocioso em seus veículos. Daniele é mais um dos jovens em meio a essa realidade, mas, ao mesmo tempo, está excluído. Tanto por sua condição financeira, quanto por sua introspecção. São pouquíssimas as falas do protagonista e, mesmo quando ele está próximo de sua namorada, ainda parece a pessoa mais distante do mundo.

PRECIOSISMO IRRITANTE

Tudo é exageradamente bonito em “Atlântida”, desde a paisagem até os corpos jovens e atléticos dos atores. Mas há aquela sensação de falta de alma. Os personagens estão inebriados em seu ócio, a beleza natural do lugar começa a se tornar irritante em certo ponto e o malabarismo da fotografia para produzir a cada frame a mais bela composição coloca o filme como esse belo corpo sem vida como seus personagens.

É tudo belo, como um comercial de perfume, não exatamente como um filme. É clara a opção por uma obra mais sensorial e o início da obra é até esperançoso nesse sentido, mas a repetição, a infinitude do mar, parecem sempre querer fazer uma relação com os personagens sem vida da obra, mas como não há interesse por esses personagens, a parte estética parece sempre um preciosismo por parte da produção.

UM FILME A PARTE

Os pontos altos do filme estão nas passagens com música. A trilha assinada por Mirco Mencacci oferece ao espectador essa sensorialidade que “Atlântida” parece tanto buscar de forma independente aos personagens ou mesmo quando se relaciona com eles, como quando o longa apresenta uma área sagrada em uma ilha, onde os jovens seguem com suas rotinas de festa, e a trilha ecoa batidas eletrônicas ritualizadas, emulando sons que facilmente ligamos aos cânticos católicos, religião predominante na Itália.

Quando a obra adentra a cidade de Veneza e faz um passeio psicodélico pelas ruas inundadas da cidade, a trilha busca mais uma vez uma relação entre clássico e contemporâneo, que combina muito bem com a fotografia que, pela primeira vez, parece acertar em seu malabarismo técnico.

Provavelmente essa parte funciona melhor, pois, os personagens já ficaram para trás com o filme concentrado exclusivamente nas sensações e na composição geográfica do local. Seria uma escolha bem mais honesta desde o início. Pena que esses momentos sejam raros em “Atlântida”, como se fossem um filme a parte do restante da obra.

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Autor

  • Gabriel Bravo de Lima

    Estudante de jornalismo na Universidade Federal do Amazonas, e diretor de cinema. Pelo seu primeiro curta-metragem, “No dia seguinte ninguém morreu”, recebeu o prêmio de melhor roteiro na terceira edição do festival de cinema Olhar do Norte. Desenvolve pesquisa de iniciação científica sobre a estética do cinema contemporâneo Manauara.

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