Demorei para finalizar “Sugarcane”: a cada depoimento carregado de dor e traumas, era uma pausa para absorver tudo que estava, finalmente, sendo contado. Em uma breve síntese, Sugarcane é uma reserva indígena localizada em British Columbia, no Canadá. No local, em 1894, é inaugurada a Missão de Saint Joseph, escolas missionárias católicas com princípio segregador de evangelização das crianças indígenas e os tirar “do problema indígena”. 

Missões essas que se espalharam por diversas regiões indígenas tanto no Canadá como nos Estados Unidos até o fechamento delas em 1997. As iniciativas registraram centenas de milhares de abusos físicos e sexuais dos padres e freiras para com essas crianças e adolescentes que viviam em estado de sítio. Nenhuma criança deixou de ser molestada ao longo dos anos, um modus operandi vicioso tanto de novas gerações de abusadores como das crianças que tiveram as infâncias, cultura, inocência e língua roubados.

Muitos são frutos dos diversos estupros, outros bebês não tiveram tanta sorte (e é difícil até escrever sobre isso). Dentre fugas, suicídios e diversas mortes, quem se importava com a causa da infância e adolescência indígena? Como bem dito em “Sugarcane”, havia um certo pecado ético em que muitos sabiam, mas não faziam nada para mudar. Estima-se que há espalhados pelos campos e ruínas desses colégios, 93 covas de meninos e meninas abusados e mortos pela cúpula missionária.

E os depoimentos são repugnantes no sentido de imaginar todo o desespero que essas pessoas sofreram caladas. Há um momento do documentário de embrulhar o estômago em que o atual líder que busca justiça lê comentários absurdos de pessoas brancas. Dentre outras injúrias, os “parasitas sociais” foi o que mais me chamou atenção.

E não consigo desvincular essa ofensa aos demais grupos étnico-raciais, se hoje somos vistos como sub humanos e como se merecêssemos tais abusos e aprender a se comportar em um mundo padronizado embranquecido, imagine naquela época. A história está aí para ser contada e não contestada.

Os traumas contados não somente interferem na auto imagem, mas também nas relações interpessoais; são pessoas carregadas de dores e aflições; que Vaticano ou Papa nenhum irá sanar, o mea culpa e o pedido de desculpas do Papa Francisco é pífio.

Só recentemente, à época da gravação do documentário, em 2023, é que formalizaram um feriado nacional, dia 30 de setembro, o “Dia da Verdade e Reconciliação” na história do Canadá, algo próximo dos nosso Dia dos Povos Indígenas (19 de abril) e Consciência Negra (20 de novembro). Tarde, bem verdade, mas nunca pode ser esquecido, pois o infanticício e todos os abusos sofridos, deixou gerações com marcas e lembranças profundas. 

Para além da atrocidade, “Sugarcane” é um documentário necessário, não somente por seu teor, mas pela busca de justiça e como o coletivo é importante nessas horas de vulnerabilidade. E mais ainda, nós, pessoas racializadas com marcas ancestrais e coletivas, estamos longe de ser parasitas sociais. Não refletimos nesse espelho.

Autor

  • Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Viciado em cultura e divas pop. Apaixonado por audiovisual (e isso inclui os novelões). Produtor de cinco curtas-metragens, entre eles "Manaus Hot City" e "Meus Pais, Meus Atores Prefiros". Jurado na 5° Edição Olhar do Norte 2023 e Curador do Ecossistema do Audiovisual no Festival Aceita 2024. E contando...!

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