A certa altura de A Guerra do Amanhã, o herói do filme se vê segurando pela mão outra personagem que está prestes a cair num abismo em chamas. Ela cai, ele grita “Nãããoo!” em câmera lenta, e aí eu dei risada e joguei minhas mãos para o ar. Tem certas coisas que não deviam ter mais cabimento em filmes em pleno 2021, mas, pelo visto, ainda cabem.

O filme do diretor Chris McKay e roteirizado por Zach Dean parece uma lista de clichês e pedaços de outros filmes, reunidos numa narrativa pouco inspirada. Mas essa cena do “Nãããoo!” é tão engraçada justamente por ter sido filmada como a coisa mais emocionante do mundo por McKay – diretor da animação LEGO Batman: O Filme (2017) – que acaba sintetizando o espírito da obra: um filme muito estúpido, muito bobo, com um ou outro momento divertido no meio.

Essa produção do estúdio Paramount – lançada na Amazon Prime Video devido à pandemia – já começa despertando risos estranhos nos primeiros minutos: bem no meio da final da Copa do Mundo de 2022 e justo na hora em que o Brasil (!) rouba a bola e parte para o ataque surge um anúncio que mudará a história da humanidade. Um grupo de soldados sai de um vórtice temporal no meio do gramado e anuncia que dali a 30 anos, a humanidade estará à beira da extinção, travando uma guerra contra alienígenas invasores.

Esse pessoal quer levar gente do presente para ajudar a combater a guerra do futuro. Nosso protagonista é Dan Forester, interpretado por Chris Pratt (“Guardiões da Galáxia”). Dan é um professor de química de ensino médio… que é também um ex-militar, porque Deus nos livre de ter um homem comum como herói de blockbuster hoje em dia. Ao ser convocado, Dan viaja para o futuro para lutar na guerra – cinco minutos depois de chegar, ele já vira o Rambo – e vai descobrir que é peça essencial na luta contra os ETs.

COLCHA DE RETALHOS METIDA A ENGRAÇADA

Percebe-se, só por essa breve descrição, que parece que o roteiro de A Guerra do Amanhã foi escrito por um menino de 10 anos. Desde o começo, o tom do filme já fica claro com personagens fazendo piadinhas a cada momento. Dan vai falar com seu velho pai (J.K. Simmons), e é um comentário sarcástico atrás do outro. Dan se despede da esposa (Betty Gilpin) antes de se apresentar, indo provavelmente ao encontro da morte, e ainda encaixa algumas piadas. Dan vai ao alistamento e encontra o cara negro que vai servir de alívio cômico. E depois tem gente que reclama de muitas piadas nos filmes da Marvel…

Esse é o tom do filme, de galhofa, mas é basicamente o único caminho possível para essa experiência tão reciclada. É possível reconhecer claramente que tal parte do filme veio de Aliens, O Resgate (1986), tal parte veio de O Enigma de Outro Mundo (1982), tal ideia veio de Guerra dos Mundos (2005). Os monstrengos alienígenas são basicamente filhotes visuais da criatura de Cloverfield (2008). A relação do herói com sua filha parece chupada de Interestelar (2014). E por aí vai…

Até a ideia de misturar invasão alienígena com viagem no tempo já foi mais bem utilizada em No Limite do Amanhã (2014). Tudo é tão genérico e derivativo em A Guerra do Amanhã que só resta ao filme investir na brincadeira, na despretensão, na piscada de olho para o espectador a fim de garantir alguma diversão.

DIVERSÃO CHEGA PELO CANSAÇO

E sinceramente, até consegue, um pouco. Após a viagem no tempo, a quantidade de piadinhas por minuto diminui bastante. McKay orquestra duas boas cenas de ação – a fuga por Miami e a cena da captura da fêmea alienígena – e o ótimo trabalho dos efeitos visuais e sonoros se destacam. São as cenas do filme que fazem valer a pipoca.

A narrativa até se torna um pouco mais focada e Yvonne Strahovski (“The Handmaid´s Tale”) – Deus a abençoe – dá tudo de si numa personagem genérica e que só fala diálogo expositivo e, mesmo assim, acaba saindo de “A Guerra do Amanhã” como a verdadeira heroína, roubando-o de Pratt, que não tem muito a fazer com seu papel. Yvonne é uma daquelas atrizes que sempre se mostra verdadeira e ela até eleva um pouco o meio de A Guerra do Amanhã.

Pena que quando Pratt entra no terceiro ato, o longa volta para as piadinhas e cenas clichês, encenadas sem nenhum pudor. Por alguns breves momentos, A Guerra do Amanhã até diverte o público. Mas são breves porque qualquer pessoa que já tenha visto meia dúzia de filmes de ação e de ficção-científica na vida sabe para onde a história vai e como este filme se resume a uma colcha de retalhos.

Não há inspiração, apenas reciclagem, e ele ainda é excessivamente longo – 2h18, e bate a saudade da época em que filmes bobos como esse ficavam em 90, 100 minutos. Acaba sendo um daqueles filmes que é ruim a ponto de ficar bom, ao menos por alguns instantes – porque, vamos ser sinceros, é impossível não se divertir ao ver a cena do “Nãããoo!”. Esse momento é glorioso e, num filme como esse, temos que nos divertir do jeito que dá.

‘Medley’: mergulho não tão fundo de amadurecimento e memória

“Medley” tem seus melhores momentos quando a personagem precisa lidar com a ausência paterna e as eventuais revelações do roteiro para essa falta.

‘Elsinore’: Andrew Scott é a razão de ser de drama biográfico clássico

“Elsinore” é um drama competente que consegue abordar um tema pesado com leveza e, como no teatro, dá amplo espaço para o seu elenco brilhar.

‘Razão e Sensibilidade’ (2026): a linda e difícil conquista de uma mulher por seu amor e espaço

Adaptação delicada de Jane Austen explora a condição feminina, as diferenças entre razão e emoção e a busca das mulheres por autonomia, amor e pertencimento.

‘100 Dias’: a imensidão do oceano e os limites de uma travessia

100 Dias impressiona pela grandiosidade da travessia ainda que falte investigar melhor para além da conquista épica de Amyr Klink.

‘Drácula de Bram Stoker’: o espetáculo barroco de Francis Ford Coppola

Clássico de Francis Ford Coppola é uma ópera barroca misturada com carnaval e terror, sendo uma demonstração da criatividade do seu diretor.

‘Buddy’: a inocência por trás do terror

Buddy demonstra compreensão afiada do potencial macabro escondido nas imagens da cultura infantil ainda que não conecte bem todas as ideias.

‘Tenzing’: positividade excessiva tira peso de feito histórico

Comprometido na reparação histórica, Tenzing tem uma mensagem otimista para se orgulhar.

‘O Bosque Selvagem’: carta de amor ao stop-motion em animação corajosa

O Bosque Selvagem entrega uma história familiar o suficiente para o público mais novo, mas cheia de ricos detalhes para o mais velho.

‘A Fabulosa Máquina do Tempo’ e a potência do sonhar

Filme de Eliza Capai se torna uma cápsula do tempo capaz de lançar reflexões sobre a sociedade que as cerca e suas próprias transformações e desejos.

‘NAZA’: um olhar sobre um genocídio em andamento

NAZA é uma leitura eficaz sobre as contradições que estão na base desse conflito e um alerta sobre os perigos que ainda podem estar por vir.