O momento mais marcante de Aqui acontece na metade inicial: Richard está sentado na poltrona de casa após um dia de trabalho ordinário quando um pitoco de gente, vestido de fantasma, invade a sala a passos curtos. Lentamente, vai até ele e dá um “susto”. Inicialmente, Richard não entende, mas rapidamente sai gritando “fantasma”, “fantasma”, enquanto a filha o persegue, acompanhada aos risos pela esposa Margaret.
Coisa besta, não? Aí, entretanto, está o grande achado de Robert Zemeckis no mais novo filme de sua carreira. Retomando a parceria com a turma de Forrest Gump — o roteirista Eric Roth e os atores Tom Hanks e Robin Wright —, o diretor/roteirista busca fazer um contraponto ao ganhador do Oscar de 1995. Se ali o extraordinário estava na relação do protagonista com alguns dos maiores eventos da humanidade no século XX, Aqui dedica seu olhar para a beleza do simples fato de viver: as alegrias, as tristezas, as frustrações, as boas e más surpresas, os planos concretizados e fracassados.
E engana-se quem pensa que Zemeckis adota um olhar romântico ou idealizado sobre a vida. Aqui registra, sim, os bons momentos em que a harmonia reina e tudo parece destinado ao sucesso e à felicidade — a noite de amor, a festa de casamento e Halloween, uma dança de celebração, o “susto” citado no primeiro parágrafo — mas dedica também um olhar interessante para os sacrifícios feitos ao longo do tempo e suas consequências.
Dos sonhos deixados de lado ora pelo pragmatismo, ora pela acomodação, ora pelo terrível medo da incerteza. Do cansaço da mesma rotina e de nunca dar o passo desejado. Dos arrependimentos de que certas atitudes poderiam ter sido diferentes, de vícios dos quais não se consegue se desgarrar, de não ter valorizado aquilo que era importante no momento exato. Do tempo que voa.
A ambiciosa narrativa da graphic novel homônima de Richard McGuire, entretanto, funciona apenas em partes na adaptação. Como o foco está na família de Hanks e Wright, todas as outras parecem ter seus dramas apenas pontuados, alternando bons e maus momentos. Se as janelas que se abrem, quase como abas de computador, até conseguem estabelecer conexões emocionais e situações que nunca se alteram, independente da época, também cansam pela repetição em uma obra de 1h45.
Zemeckis, entretanto, não é um Richard Linklater da vida para se desprender da grandiosidade no sentido do espetáculo. Logo de cara, no melhor estilo 2001: Uma Odisseia no Espaço, o diretor de De Volta para o Futuro, Gump e Contato passa por bilhões de anos, saindo da era dos dinossauros, chegando no período glacial até o surgimento dos povos originários. Tudo isso em questão de minutos. O tom épico se mantém na dimensão da estrutura narrativa de abordar histórias que se intercalam e se conectam, atravessando, pelo menos, seis a sete séculos.
Com a câmera posicionada devidamente em um ponto único ao longo de (quase) toda a projeção, Aqui se torna um deleite visual pelas transformações dos espaços ao longo do tempo, seja na mudança de piso, dos aparelhos tecnológicos, das próprias mobílias e pinturas da casa, refletindo seus moradores e as tendências de cada época. O CGI, capaz de rejuvenescer quase à perfeição Hanks e Wright, contribui para o tom fabular, por vezes excessivo, tão característico de Zemeckis.
Este olhar melancólico, ainda que esperançoso, sobre a vida faz Aqui escapar — felizmente — dos discursos coach e maniqueístas, tão simplificadores sobre a complexidade humana. Um ponto de vista que somente alguém com 72 anos de idade, com uma vida e carreira marcadas por esta aliança entre passado (temática) e futuro (tecnologia), pode oferecer ao abordar questões universais.













