Deprecated: Automatic conversion of false to array is deprecated in /home/cinesetc/public_html/wp-content/themes/Extra/core/functions.php on line 1469

O cenário é o seguinte: Josh Hartnett, o paizão do ano, está com a filhinha no show de uma pop star adolescente chamada Lady Raven. Em cena, a tal ídola é vivida por Saleka Shyamalan, que, na vida real, também tem uma carreira como cantora. O leitor mais atento já deve ter notado que Saleka é filha do diretor deste “Armadilha”, M. Night Shyamalan. Ou seja: temos aqui um Shyamalan fazendo cinema totalmente no modo “pai de menina”.

O que é até natural, visto que a unidade familiar é um dos temas centrais da obra do cineasta indiano-norte-americano. A novidade vem na pergunta central por trás desta trama: e se seu pai fosse, na verdade, um serial killer?

É o caso da pobre Riley (Ariel Donoghue), que nem desconfia que o pai, Cooper (Hartnett), é o temível assassino conhecido como “Açougueiro”. E esse segredo corre o risco de vir à tona quando Cooper descobre que o tal show onde se meteu com a filha é, na verdade, uma complexa operação policial para prendê-lo, ou melhor, ao Açougueiro. Como fugir?

ECOS DE ‘FRENESI’

Percebe-se, então, duas perversões logo de cara: que nosso protagonista seja um assassino brutal e, pior, que a unidade familiar esteja sendo corrompida de dentro para fora por esse monstro dissimulado. Mas há ainda uma terceira perversão em jogo: que “Armadilha” seja conduzido por Shyamalan com guinadas rumo à comédia macabra.

A sensação que dá é a de que este é o “Frenesi” do diretor. Falo aqui daquele longa tardio de Alfred Hitchcock, de 1972, também sobre um assassino, também morbidamente cômico. O prazer aqui está em tentar adivinhar como nosso protagonista irá se safar dessa, que novo plano ele irá traçar, que maldades irá aprontar.

Hartnett é fundamental nesse sentido. Boa parte da graça da primeira metade do longa vem do olhar de presa acuada que não se deixa abater, do modo como um arquear de sobrancelha sugere todo seu cinismo, todo seu sentimento de superioridade. Acompanhar a dissimulação se torna motivo de graça para o espectador. Quando rimos, já estamos no seu bolso.

AMEAÇA INESCAPÁVEL

De fato, não temos aqui o peso dramático de um “Batem à Porta”, seu último longa. E, no entanto, “Armadilha” é, sim, profundamente devastador. Quando nos damos conta de que estamos torcendo pelo vilão, já é tarde demais: Shyamalan já virou a faca.

E ele vai fundo. Ao longo da projeção, veremos Hartnett causando ferimentos grotescos em pessoas que nada têm a ver com a situação, só para se safar. Ouviremos também sobre seu cruel modus operandi com as vítimas: desmembramento. Mais importante, chegaremos, pouco a pouco, à inevitável constatação de que, seja qual for o desfecho desta história, a pobre Riley vai sair estilhaçada, de uma forma ou de outra.

Por isso, perversão no sentido de ser uma inversão de um dos motes da obra do cineasta. Ou seja, a ameaça à família é inescapável porque vem de dentro da própria unidade familiar. É uma colocação, naturalmente, profundamente trágica. Que Shyamalan arranque risos de tamanha dor é prova de seu talento. E que uma obra como esta, altamente original e inegavelmente pessoal, consiga lotar sua noite de estreia em um multiplex da Tijuca talvez seja prova de que este se trata do maior cineasta estadunidense em atuação.

Autor

  • Marcos Faria

    Marcos Gabriel Faria é artista visual e cineasta baseado no Rio de Janeiro, RJ. Graduado pela UFF em Cinema e Audiovisual, é um dos criadores, ao lado de amigos da graduação, do blog Conversas de Bandejão, para o qual também contribui com textos sobre cinema e arte em geral.

    Ver todos os posts