De tempos em tempos, tento uma nova incursão pelo cinema de Jacques Rivette à espera de resultados melhores do que os que obtive até então. Rivette, talvez você saiba, difere de seus pares da Nouvelle Vague especialmente pelos seus filmes longuíssimos.
Há não muito tempo, tentei a sorte com seu “Out 1”, originalmente exibido em episódios que totalizam 13 horas de projeção. Só consegui ver as duas primeiras horas (já iremos tratar do filme de Juliette Binoche, paciência). Elas consistem majoritariamente em cenas vagarosas com grupos de atores ensaiando e praticando exercícios cênicos, tudo com muita gritaria e rolamentos pelo chão. Decidi fazer outra coisa e deixar o Rivette para uma próxima.
Alguns momentos de “In-I in Motion” me trouxeram esses flashbacks de guerra. Somos jogados sem muito aviso em meio a exercícios teatrais. Juliette Binoche e Akram Kahn gritam um com o outro enquanto se atracam e, por vezes, se acariciam. Enquanto eles gritam, uma voz em off grita mais ainda — é a preparadora de elenco.
Eu, pessoa civilizada e ocidental, não entendo qual é a dessa gritaria toda. Parece que é algo sobre liberar energia, extravasar emoções reprimidas, preparar o corpo para o trabalho a seguir. Pode ser. Por não ser ator, confio na palavra de quem é.
“In-I in Motion”, estreia de Binoche na direção, documenta o processo de criação de um espetáculo em parceria com o dançarino Akram Kahn. Que ele não saiba atuar e ela não saiba dançar é justamente o que os impele — um precisa ensinar ao outro. É também nosso gancho — será que eles vão conseguir?
Se você é dos que têm paciência para cenas e mais cenas de improvisação e ensaios erráticos, poderá assistir aqui a uma performance lentamente ganhando forma — mas bem lentamente mesmo. É… hm, interessante, adjetivo que, quando usado nas conversas cotidianas, sempre traz um certo amargor.
É claro que Juliette Binoche pode fazer o que bem entender — afinal, ela é Juliette Binoche. Só nos perguntamos se é realmente necessário assistir a duas horas do seu processo criativo emergindo em tela. Sim, há coisas interessantes — de novo essa palavra terrível —, como objetos cênicos defeituosos, movimentos de dança perigosos, memórias de infância que ressurgem etc. Mas para onde tudo isso nos leva?
Ah, claro, para a noite de estreia do espetáculo, ao qual assistimos na íntegra, por algo como q40 minutos, talvez mais, na porção final do filme. E é um espetáculo bom? É… hm, interessante.
E finalmente estamos aptos para explicar qual é então o grande problema: é sempre um péssimo sinal quando alguém te pergunta se algo é bom ou ruim e você, acuado, procurando a saída desesperadamente, responde que, bom, é interessante, sabe? E se esse é o grande desfecho do seu filme…
Vá lá: assistir à performance completa traz, sim, uma nova camada de respeito pelo trabalho dos atores. Não é só que eles suam em cena — eles literalmente deixam marcas e mais marcas de suor por todo o cenário. Há tanto suor envolvido que eu me peguei tenso, com medo de que alguma gota fugidia escorresse para o olho de algum deles e deixasse a pessoa temporariamente cega no palco.
É como se, subitamente, o filme se transformasse num thriller. Só não um dos mais envolventes — mas certamente interessante!













