Alguma coisa está acontecendo com Tom Hardy. Sempre foi um bom ator – daqueles discípulos do método Stanislavski, se imerge no personagem e não sai dele – e especializado em tipos intensos, às vezes atormentados, às vezes até vilanescos. Mas aí em 2018 o cara fez o blockbuster Venom, baseado no vilão/anti-herói das HQs do Homem-Aranha, e ali demonstrou que havia umas doses de loucura histriônica dentro dele. Venom, com o perdão do termo, caro leitor, é uma merda – tanto que o incluí na minha lista de piores daquele ano, publicada aqui no site. Mas eu estaria mentindo se dissesse que, em algumas cenas, Hardy não me fez rir com sua atuação tresloucada. Quem diria, havia um mini-Jim Carrey, um mini-Nicolas Cage dentro dele, esperando para aflorar.

Hardy retorna às telas com Capone, projeto do produtor Lawrence Bender – parceiro de Quentin Tarantino em muitos dos seus clássicos – e do diretor Josh Trank, na sua volta à cadeira de diretor depois de passar uns anos na geladeira de Hollywood. Para quem não lembra, Trank é aquele do infame Quarteto Fantástico de 2015. Naquele tumultuada produção, foi Trank quem inventou de misturar doses de horror aos personagens clássicos da Marvel, e durante as filmagens brigou com elenco, equipe e produtores. Depois, a 20th Century Fox tentou minimizar o estrago forçando Trank a fazer extensas refilmagens, porém nada funcionou e o filme acabou afundando nas bilheterias.

Trank é o próprio autor do roteiro de Capone, que é baseado no mais icônico mafioso de todos os tempos. Ambientado no último ano da sua vida, o filme nos mostra Al Capone – interpretado por Hardy – vivendo numa mansão na Flórida após ter cumprido sua pena por sonegação de impostos, o único crime pelo qual conseguiram condená-lo, apesar de todo o contrabando de bebida e dos assassinatos que ele cometeu ou ordenou.  Capone vive lá com sua família, mas encontra-se afastado de um dos seus filhos e sofrendo de demência decorrente de sífilis. Ao mesmo tempo em que sua saúde e sanidade começam a piorar, se intensifica ao redor dele uma busca dos agentes federais que o monitoram por uma fortuna que o ex-chefão teria escondido.

Felizmente, o diretor aqui parece ter levado seu trabalho a sério.  Sua direção ressalta em vários momentos a claustrofobia da mansão e da deterioração mental de Capone. A certa altura da narrativa, o personagem mergulha em seus delírios – com direito até a participação de um sósia do Louis Armstrong numa cena de baile que lembra O Iluminado (1980) – e revive um pouco dos seus tempos de glória misturados com horror. Alguns dos melhores momentos do filme são justamente estes, quando não sabemos ao certo se o que vemos é real ou está apenas na mente do protagonista.

Não que Capone seja uma meditação sobre o fim da vida ou algo profundo – o roteiro não tem estofo para tanto. Mas é interessante, ocasionalmente esquisito, e bem narrado, e Trank também se mostra competente na condução dos atores, cercando Hardy de um elenco de apoio consistentemente sólido que inclui Linda Cardellini, Matt Dillon e Kyle MacLachlan.

O VERDADEIRO BRILHO

Embora o filme nasça com Trank, Hardy se apossa dele. A atuação dele em Capone é de novo uma coisa bonita de se ver, vital e imprevisível, aliando doses de histrionismo com toques de sensibilidade. Há momentos no filme em que vemos Hardy murmurando, falando um italiano meio macarrônico ou gritando com as pessoas – é quase impossível não soltar umas pequenas risadas nessas cenas. Em outros, vemos o ator usando seu rosto, seus olhos – e como ele usa os olhos! – e sua postura corporal para transmitir o verdadeiro terror existencial pelo qual Capone está passando, e os indícios de compreensão da tragédia que foi sua vida. Uma cena dele falando com o agente do FBI perto do fim, com Hardy só usando suas expressões faciais, se torna um momento eletrizante na tela. E a conclusão, com o filho distante, é outro momento sem palavras que o ator torna especial.

É uma atuação realmente multifacetada, que embora não chegue a atingir níveis de esquisitice comparáveis aos de Venom – e nem poderia, dada a natureza do material – demonstra ser mais um trabalho especial e diferenciado deste ator. Capone é um filme meio esquisito e nem todo mundo deve abraçar: não é realmente uma cinebiografia nem filme de gangsteres, nem diz nada de novo sobre essa figura que já foi mostrada no cinema várias vezes antes. Mas dentro dele existe realmente um centro brilhante, um ator que demonstra saber usar um pouco de loucura em prol da sua arte.

Apesar de que, quando recordamos da sua carreira, vemos que Hardy já tinha demonstrado essa faceta mais louca na sua também poderosa atuação em Bronson (2008), lá atrás. Demorou alguns anos, mas aquele lado dele está aflorando cada vez mais. Alguns filmes se tornam especiais por causa dos atores, e isso é mais comum do que diretores gostam de admitir. Parece que Capone entrou nessa lista e que venham mais esquisitices de Tom Hardy…

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