O Brasil é um dos países que lidera o ranking de assassinato de transsexuais no mundo. Por mais batida e repetitiva que essa frase soe, tornou-se inevitavelmente assumir o espiral crescente de violência que se deposita em nosso país. Acompanha-se o reflexo da intolerância do Estado a grupos minoritários nos telejornais, na internet e até mesmo no dia-a-dia. Esse é um dos pressupostos utilizados por Tatiana Issa e Guto Barra em “Dominique”, selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais do Festival de Gramado 2020.

O documentário acompanha a personagem-título em uma visita a mãe no interior do Pará. Enquanto viaja a encontro do seio familiar, ela permite-se embarcar em suas próprias lembranças e em sua trajetória como mulher trans. A narração em off nos faz experimentar suas vivências e refletir sobre os meandros de um país conservador que tem fetiche por aqueles que crítica e abomina. Enfim, a hipocrisia.

“Dominique”, no entanto, parte para um plano maior, ainda que pouco explorado. E abraça uma situação que soa como um contraponto: a família conservadora e a mãe que aceita as três filhas transsexuais. Costumamos dizer que nós, amazônidas, somos receptivos e somos desconfiados na mesma proporção e isso afeta a vida da personagem que precisa sair de casa ainda adolescente para aventurar-se nas ruas de São Paulo, onde experimenta a violência dos centros urbanos a travestis por meio da marginalidade, invisibilidade social e agressividade policial.

Issa e Barra trazem para produção a sensibilidade que norteia muitos dos seus projetos, especialmente “Fora do Armário” – série da HBO que aborda a mesma temática. Sua maneira de retratar a terra de Dominique e a ancestralidade que percorre as veias nortistas, no entanto, possui um eco de “Maria” de Elen Linth. Principalmente, na relação entre a terra, bastante captada pelas lentes de Guto Nasr, e a narração em off que revela o turbilhão que permeia a mente de Dominique.

O documentário se torna uma das peças mais carismáticas e emblemáticas do Brasil de 2020. Issa e Barra nos entregam um filme que é um reflexo do país com suas violências e cidadãos dispostos a lutar por seu direito de existência. Nessa batalha, é preciso destacar que mesmo em meio a tanta dor, Dominique encontra o acolhimento nos braços da mãe. Somos guiados por suas desventuras, seus anseios e percebemos em seus caminhos a força e a leveza que podem circundar nossa sociedade.

Simples, potente e acolhedor.

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