As cinebiografias estão cada vez mais tornando-se  tão onipresentes quanto obsoletas naquele modelo engessado de contar uma história de uma pessoa notória. Entra ano e sai ano elas estão lá, nas salas de cinema ou nos streamings da vida e, claro, geralmente concorrendo a prêmios. 

Mesmo dando sinais de muito cansaço, independente da narrativa proposta, há sempre umas gratas surpresas, não pelo filme em si, mas pela figura. Como dito, pessoas notórias, com uma grande importância política e social, mas que com o passar dos anos, seus nomes foram ficando esquecidos dos livros de história, museus, estudos acadêmicos, etc. Restando a cinebiografia para atingir ao público que sofre de uma amnésia coletiva secular (e digo mais: PROPOSITAL). No Brasil, recentemente tivemos um pouco da história contada do escritor Lima Barreto em “Lima Barreto – Ao Terceiro Dia” (2019), e agora temos “Madame Durocher”, primeira mulher no país reconhecidamente parteira formada na Escola de Medicina do Rio de Janeiro e a primeira a tornar-se membra oficial da Academia Nacional de Medicina, isso tudo no século XIX.

E por onde andava essa história tão notável que muita gente desconhecia? Pois então, essa é a tarefa do cinema aqui, descavá-las para que sejam contadas e recontadas adequadamente, parafraseando a filósofa portuguesa Grada Kilomba.

Com o pomposo nome de Marie Josephine Mathilde Durocher, a jovem imigrante francesa faz parte de uma dinastia de mulheres solteiras e que assumiram os riscos de serem sozinhas e cuidar de si e de suas filhas. No Brasil, após a morte da mãe e do marido, sozinha com um filho pequeno e uma criada ex-escravizada (?), ela se vê obrigada a procurar um emprego e ser parteira, naquele momento, a sua única opção.

Mal sabia ela que, a partir dessa escolha, Durocher mudaria o curso das mulheres na ingressão de cursos superiores, em artigos científicos e ser respeitada pela profissão. Porém, o percurso foi longo e foi bastante duro.

A direção da dupla Dida Andrade e Andradina Azevedo faz um bom trabalho no contexto narrativo em mostrar como essa jovem menina se torna uma mulher forte e destemida, defendida com maestria por Jeanne Bourdier e Sandra Corveloni. E o contexto social patriarcal de uma sociedade ambientada no século XIX, onde escravizados e mulheres não tinham voz ativa. Era preciso muita força de vontade e um ideal para vencer as barreiras impostas. E Madame Durocher, mesmo endurecida pelo machismo, misoginia e descrença de sua competência, a ponto de se vestir como um homem para transitar por caminhos perturbadores, venceu.

Mesmo nessa imersão histórica, senti em certos momentos frases de efeito para causar um desconforto, mas que, na minha visão, tornou-se incômoda por soar artificial. Faltou mais veracidade nessas falas, o choque pelo choque não ajuda. Contudo, sem dúvidas, o ponto máximo de “Madame Durocher” é o monólogo forte e desconcertante de Clara (Isabel Fillardis), ex-escravizada que passou a vida “como se fosse da família” de Durocher e seu filho. Sua história como ama de leite dói nas entranhas e o fato da Madame não saber da vida da pessoa que esteve ao seu dispor ao longo dos anos só acentua o fato desse descaso. Será que é da família mesmo? Grande momento das duas atrizes em perfeita sincronia em cena.

Prefiro acreditar que o filme é muito mais uma apresentação histórica, um documento histórico performado, uma introdução à Madame Durocher e todas as barreiras que ela quebrou que não devem ser esquecidas, afinal, foi pioneira. Acreditando nisso, o filme se eleva um pouco mais.

Autor

  • Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Viciado em cultura e divas pop. Apaixonado por audiovisual (e isso inclui os novelões). Produtor de cinco curtas-metragens, entre eles "Manaus Hot City" e "Meus Pais, Meus Atores Prefiros". Jurado na 5° Edição Olhar do Norte 2023 e Curador do Ecossistema do Audiovisual no Festival Aceita 2024. E contando...!

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