“Ei, você está ai?”

Há algum tempo li um tweet que dizia que quem driblou a pandemia foram as pessoas que arranjaram um emprego e/ou começaram a namorar durante a quarentena. A situação ímpar de isolamento que vivemos levou muitas pessoas a recorrerem à troca de mensagens com ex-parceiros no intuito de acalentar a solidão ou encontrar novas formas de se relacionar. Digamos que “Me Sinto Bem Com Você” aborda um pouco essa questão ao mostrar como os jovens lidaram com relacionamentos, flertes e conexões virtuais no último ano.

O filme dirigido por Matheus Souza (do insipido “Ana e Vitória”), disponível no Prime Vídeo, acompanha cinco relacionamentos tentando sobreviver às turbulências da quarentena. Todas as narrativas têm em comum as inseguranças, medos e carências potencializadas nesse período, no entanto, diferentemente de “Amor e Sorte” – série do Globoplay que tem a mesma temática – as conexões realmente são voltadas para alcançar o público mais jovem dado não somente pelo seu elenco, mas também pela a liquidez e efemeridade como esses relacionamentos são apresentados e construídos.

A montagem de Rodrigo Daniel Melo (“Se eu Fosse Você”) utiliza a técnica de split screen – quando a tela é dividida em vários quadros – para estabelecer um dinamismo nos diálogos entre os personagens. É possível ver telas de celular, de computador e até mesmo os famigerados áudios gigantescos. Entende-se que essa escolha visual se pauta na necessidade do distanciamento, por isso, apenas o casal interpretado por Thati Lopes e Victor Lamoglia contracenam no mesmo ambiente – por morarem juntos na vida real -, porém até mesmo eles passam pela mesma construção estilística. Devido a isso e aos inúmeros filmes pandêmicos que o utilizam, o recurso se torna cansativo.

ENTRE GATILHOS E REFLEXÕES

O maior destaque da trama é a fotografia de Camila Cornelsen (da contemporânea “Todxs Nós”). Mesclando combinações de cores quentes que nos levam ao mesmo tempo a compreender o nível dos relacionamentos –o vermelho para o casal que queria sexo casual; o amarelo para o casal que teve um término traumático; o branco para as irmãs que buscam, na troca familiar, curar feridas do passado. Essa combinação imagética possibilita um leve mergulhar nas reflexões que as histórias suscitam.

É uma pena que algumas histórias que renderiam narrativas pouco abordadas na comedia romântica/dramática nacional tenham o tempo de tela reduzido e não saiam da superficialidade.

“Me Sinto Bem Com Você” é um daqueles registros que lembrarão por bastante tempo como o audiovisual teve que se adaptar no período pandêmico. Para quem está fragilizado por um relacionamento em tempos de Covid-19, o filme pode despertar gatilhos, mas ser significativo e levar a reflexões, ainda que superficiais. Afinal, quem não sentiu saudade de alguém que lhe fez bem e a pandemia separou? Talvez seja o momento de dizer o quanto se sentia completo com ela.

‘Dentro da Baleia’ impressiona ao unir drama familiar e horror cósmico

Dentro da Baleia ao mesmo tempo em que se apresenta como uma batalha pela sobrevivência, é um drama familiar bem composto.

‘Diário de Fogo’: filme não rompe com os vícios do cinema de festival

Fica aquela impressão amorfa de que assistimos a mais um filme de festival, mesmo quando o projeto parece buscar desesperadamente sua singularidade.

‘Sobrevivência’: Ben Affleck se enrola em crítica política aleatória

Derivativo, cansativo e bem distante da competência de Ben Affleck, Sobrevivência é um teste para a paciência.

‘Outra Mamãe’: terror amplia péssima fase de Jessica Chastain

Terror com Jessica Chastain coloca a atriz para sorrir estranhamente, mas não reverte a má fase da sua carreira.

‘Cão sem Plumas’: doc cresce quando deixa a dança falar por si

“Cão Sem Plumas” revela o processo criativo de Deborah Colker em uma jornada pelo Rio Capibaribe, mas perde força com as declarações excessivamente poéticas da coreógrafa.

‘A Revolta’: passado e presente se encontram no caos de Paul Greengrass

Mesmo com uma perspectiva dramaticamente tímida e superficial, A Revolta entrega o que Paul Greengrass sabe fazer de melhor.

‘Elza’: doc. encontra grandeza ao deixar Elza Soares cantar

“Elza” celebra a potência vocal e a presença magnética de Elza Soares em um documentário imersivo que emociona pelas performances.

‘Vicentina Pede Desculpas’: drama sensível deixa sensação de que falta algo a mais

Execução precisa de Gabriel Martins e atuação excelente de Rejane Faria não escondem faltante em Vicentina Pede Desculpas.

‘Unabomber’: história extraordinária rende apenas um filme comum

Suspense da Netflix sobre um dos terroristas mais notórios dos EUA resulta numa narrativa enfadonha e cheia de clichês.

‘Funk’: Aly Muritiba fica longe de compreender a favela e o ritmo musical

Funk tenta retratar a ascensão de uma MC da favela, mas se perde em clichês, excesso de estilo e falta de personalidade.