Entre violência e religiosidade, ‘O Diabo de Cada Dia’ é puramente mais uma produção hollywoodiana que tenta reinventar a temática nacionalista de guerra. Com um bom elenco e uma narrativa complexa, o longa dirigido por Antonio Campos (“The Sinner”) é capaz de envolver seu público por mais de duas horas com suas histórias interligadas pelas temáticas principais e apresente uma ótima montagem e design de produção, embora não utilize todo potencial da história original.

Baseado no romance homônimo de Donald Ray Pollock, a trama ambientada entre a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã acompanha diversos personagens num canto esquecido de Ohio, nos Estados Unidos. Cada um deles foi afetado pelos efeitos da guerra de diferentes maneiras e, em sua maioria, apresentam uma forte fé na religião como resposta para seus conflitos. Entre eles se destacam o veterano de guerra Willard Russell (Bill Skardgård), seu filho Arvin Russel (Tom Holland), o falso pregador Preston Teagardin (Robert Pattinson) e o casal de serial killers Sandy (Riley Keough) e Carl Henderson (Jason Clarke).

Com um grande número de personagens em diferentes linhas temporais, ‘O Diabo de Cada Dia’ é muito eficaz em realizar a conexões entre histórias. Para isto, além da narração ser um recurso de grande ajuda, a montagem é muito importante para manter um ritmo interessante, o qual não deixa a narrativa tediosa. Outro fator decisivo na boa dinâmica e envolvimento do público é a construção dos personagens: cada um deles possui características em comum com a outra e até mesmo desfechos semelhantes, sendo facilmente entendido que as ligações entre personagens vão além do período histórico ou laço parentesco, induzindo que esta é uma história a ser repetida muitas vezes.

A temática em si, apesar de insistir no debate batido sobre guerra, traumas e muita violência, consegue ser bem convincente quando muda seu foco para a religião. Basicamente, “O Diabo de Cada Dia” fala acerca da fé e religiosidade sendo utilizadas como justificativas para atitudes humanas mal pensadas. Para isso existem as figuras mais caricatas de pastores, interpretados brilhantemente por Robert Pattinson e Harry Melling, mas, também em pessoas devotas e até mesmo sem tanta fé. O elenco no geral é bem convincente e mostra onde o Antonio Campos investiu seus esforços trabalhando nos sotaques e semelhanças físicas dos atores.

O que não funciona

Apesar de possuir narrativas com temas mais densos, não existe um grande incômodo a ser transmitido, o que pode ser visto como uma falha, pois, “O Diabo de Cada Dia” intui isto como objetivo. Ou seja, a história não é voltada para alguma satisfação ou final feliz, muito pelo contrário; seus personagens encaram desfechos desafortunados, porém, nem todos eles passam a sensação de incômodo ou inquietação a qual o filme poderia se valer e explorar mais amplamente.

A falta de comprometimento com a proposta também ocorre com os acontecimentos do protagonista Arvin, já que ele sempre conta com resoluções fáceis para o roteiro, mas difíceis de serem aceitas pelo público, tirando qualquer credulidade da trama.

Desta forma, mesmo com um bom ritmo, “O Diabo de Cada Dia” apresenta um terceiro ato alongado e previsível, deixando uma impressão menos proveitosa do que vários outros momentos anteriores da narrativa, tornando-se mais uma boa produção, embora falte muito para ser um filme tão brilhante quanto sua proposta inicial.

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