O Oficial e o Espião é um drama baseado no famoso “caso Dreyfus”. Em 1894, oficiais do exército francês descobriram que informações confidenciais sobre seus armamentos estavam sendo repassadas para os alemães e o capitão Alfred Dreyfus foi acusado de ser o espião, o autor dos vazamentos. As evidências contra Dreyfus eram frágeis, mas ele foi condenado à prisão perpétua e mandado para a Ilha do Diabo. No fim das contas, ele não era espião e alguns anos depois, foi comprovada a sua inocência.

Foi um dos mais vergonhosos incidentes da história francesa e gerou comoção nacional, principalmente pela forma como os militares acusaram Dreyfus – basicamente, por ser judeu, o nome dele pulou para o topo da lista dos suspeitos – e mais tarde, quando a acusação começou a ser questionada, os militares tentaram encobrir o embaraço fazendo um linchamento público. O caso Dreyfus já foi dramatizado nas telas algumas vezes antes, mais notadamente no ótimo drama A Vida de Emile Zola (1937), no qual Paul Muni ganhou o Oscar de Melhor Ator ao viver o advogado humanista que lutou, junto a outras pessoas, para libertar Dreyfus.

Já O Oficial e o Espião… bem, é dirigido por Roman Polanski. É fácil pensar num paralelo dentro da obra entre o polêmico Polanski e Dreyfus. Autor de alguns grandes filmes da história do cinema – “Chinatown”, “O Bebê de Rosemary”, “O Inquilino”, “O Pianista” – e de, ao menos, um ato comprovado e completamente desprezível – leia-se, o abuso sexual da menor Samantha Geimer na década de 1970, pelo qual escapou praticamente impune – podia-se esperar que o cineasta, que também é judeu, iria de algum modo se apropriar da injustiça cometida contra Dreyfus para comentar, ou até mesmo relativizar a sua culpa, comparando-se a um homem injustamente acusado DE VERDADE.

E de fato, essa visão sobre o filme realmente prevaleceu, como se viu na cerimônia do César, grande prêmio do cinema francês, na qual O Oficial e o Espião foi premiado. Viralizou a cena da atriz Adèle Haenel, de Retrato de Uma Jovem em Chamas (2019), abandonando a cerimônia quando Polanski foi anunciado como vencedor de Melhor Diretor pelo filme.

Mas de fato… Polanski faz esse paralelo no seu filme? É difícil argumentar que sim, e é aí que O Oficial e o Espião comprova realmente a sua qualidade e a inteligência da visão do seu realizador. No filme, na verdade, acompanhamos os esforços do Coronel Picquart, vivido por Jean Dujardin. Ele é o oficial que assume as operações de inteligência e sobe de cargo após Dreyfus ser preso, mas, aos poucos, descobre evidências da acusação fajuta contra o ex-oficial e passa a questionar seus superiores, trazendo à tona o escândalo que abalaria a nação.

CLIMA PARANÓICO TÍPICO DE POLANSKI

Polanski e o co-roteirista Robert Harris – autor de um livro sobre o caso, no qual o filme se baseia – estabelecem desde o começo o contexto antissemita forte da época: o próprio Picquart relembra, num flashback, seu encontro com o jovem Dreyfus, que foi seu aluno, no qual confessa que não tem amores pelos judeus, mas que o trataria com justiça. Sem estragar nada realmente, é necessário ressaltar que esse momento faz uma bela rima visual e narrativa com o desfecho de “O Oficial e o Espião”. Mas o elemento antissemita não é martelado na cabeça do espectador, nem exageradamente enfatizado pelo roteiro. Na verdade, o filme evita fazer julgamentos e deixa que os fatos falem por si.

E tematicamente, O Oficial e o Espião se encaixa perfeitamente na obra de Polanski. O protagonista Picquart é mais um que encara um sistema, um grupo organizado, uma conspiração, dedicada a acabar com ele, e aos poucos se torna paranoico, tal e qual outros protagonistas de filmes do diretor. Polanski conduz o longa com rigor e um olhar quase clínico, sem enfeites e numa abordagem clássica e discreta, limitando-se a seguir seus personagens dentro do enquadramento; e a fotografia de Pawel Edelman, colaborador regular do diretor, filma tudo com uma iluminação natural e cria um clima delicado, de tensões sob a superfície.

Contribuindo para esse clima, temos as ótimas atuações dos atores: Dujardin nunca esteve melhor, com um desempenho sólido, comedido e cheio de nuances; e Louis Garrell, Hervé Pierre, Mathieu Almaric e Emmanuelle Seigner, esposa do diretor, conseguem se destacar e criar figuras interessantes mesmo com pouco tempo de tela. 

É um filme maduro, feito por um cineasta no domínio dos seus poderes, e que à parte um final corrido demais – mas com uma boa cena de desfecho – não pode realmente ter a sua qualidade muito questionada. Infelizmente, conciliar a pessoa Roman Polanski com seus filmes é algo que todo cinéfilo precisa fazer por si só. Mas é difícil refutar o fato de que, atrás das câmeras, Polanski muitas vezes demonstrou ser genial. É difícil encontrar um cineasta já na casa dos 80 anos que continue fazendo filmes com uma visão tão arguta – apesar, verdade seja dita, do tropeço do seu filme anterior, o fraco Baseado em Fatos Reais (2017). O debate sobre Roman Polanski continua, e a sua dramatização de uma das mais infames injustiças do final do século XIX, que ainda permanece atual, não o resolve. Pelo contrário, só adiciona lenha na fogueira…

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