Mesmo ambientado no fim da década de 1970 com uma trilha repleta de flashbacks e o visual estiloso com ares de blaxplotaition, “Rainhas do Crime” exala o grito do movimento feminista da atualidade. Trata-se de uma produção dirigida por uma mulher estreante na função (Andrea Berloff), com um trio de mulheres protagonistas representando os mais diferentes perfis (Elisabeth Moss, Tiffany Haddish e Melissa McCarthy) a partir de uma graphic novel criada por uma mulher (Ming Doyle em parceria com Ollie Masters).

Mais do que isso: “Rainhas do Crime” utiliza dos filmes de gângsters – gênero predominantemente marcado por ícones da masculinidade desde “Inimigo Público” (1931), de  William A Wellman – para a construção de personagens femininas fortes, sendo a violência um elo entre o trio para a transformação da personalidade de cada uma delas.

Ambientado no lendário bairro de Hell´s Kitchen, em Nova York, “Rainhas do Crime” acompanha a história de um trio de mulheres levando diferentes tipos de relacionamento com os respectivos maridos: Kathy (McCarthy) tem uma vida tranquila com Jimmy (Brian d´Arcy James) e os dois filhos; Claire (Moss) sofre com a violência doméstica cometida pelo companheiro, enquanto, Ruby (Haddish) sempre está sendo maltratada por James (Kevin O´Carroll) e a sogra. A situação, porém, muda quando os ‘machos-alfas’ são presos e as três acabam se vendo sem condições financeiras para sustentar as casas onde moram. Após várias tentativas, o trio decide ingressar no ramo dos maridos, levando à rivalidade com os mafiosos locais, todos homens.

EMANCIPAÇÃO FEMININA PELA VIOLÊNCIA

Fascina na construção de “Rainhas do Crime” como o roteiro elabora todas as barreiras feitas contra as personagens seja no âmbito privado da família quanto no externo. Como prenuncia o título da música de abertura, ‘It´s a Man´s Man´s Man´s World’, de James Brown, intimidações, gritos, abuso da força, ameaças financeiras constroem um cenário de violência física e psicológica colocados em potência máxima na tela, mas, não tão longe da realidade vivenciada por tantas mulheres nos dias de hoje. Muito destes atos, aliás, são gerados pelo temor de homens inseguros e incapazes em se posicionar no lugar de suas companheiras, como demonstra a parte final do suspense.

Como todo bom filme de gângsters e também um retrato da triste faceta da cultura americana, a violência surge como catalisador desta vingança. O tiro barulhento e forte explodindo no peito ou na cabeça, a série de assassinatos cometidos por uma determinada personagem e a mutilação até quase natural de um corpo se tornam símbolos da necessidade de se impor em uma sociedade que parece apenas entender esta linguagem – a da força bruta.

Não à toa dois dos diálogos mais impactantes de “Rainhas do Crime” – Ruby com a mãe e Kathy com o pai – estão cercados do entendimento da necessidade de uma certa desumanização para encarar e interromper o processo degradante de submissão a que negros e mulheres são colocados na sociedade.

PODERIA SER PERFEITO, MAS NÃO É

Este rico subtexto tão antenado com o mundo real e capaz de subverter pilares dos filmes de gangsters merecia um roteiro melhor. Incomoda o viés feminista de “Rainhas do Crime” acabar tendo sempre uma válvula de escape masculina para salvar as protagonistas.

Gabriel (Domhnall Gleeson), por exemplo, surge em um momento tão ‘Deus Ex Machina’ a ponto das personagens explicarem qual a origem e de onde ele veio nas cenas seguintes, quase como uma tentativa de remendar uma falha gritante do roteiro. O conflito final do filme com Kathy cercada de homens prontos para estraçalhar o inimigo coroa esta incoerência.

Também responsável pelo roteiro, Andrea Berloff cai no pecado de querer fazer um final repleto de reviravoltas à la M. Night Shyamalan com uma novidade a cada cinco minutos. Porém, a apresentação destes ‘plots twists’ soa confuso demais e repleto de excessos, o que acaba por tirar o foco central da trama nas personagens femininas.

Ainda há núcleos e subtramas em excesso (Margo Martindale tenta fazer às vezes de Livia Soprano, mas, some rapidamente), somos obrigados a ver o momento do vilão explicando o seu plano com direito a flashback e uma construção de cena mal feita quase que implorando para o espectador prestar a atenção naquele personagem franzino, pois, ele fará algo grandioso mais adiante.

Auxiliado por uma trilha sonora ótima repleta de clássicos, belos figurinos e uma direção de fotografia de Maryse Alberti com ecos de Scorsese dos anos 70 e 80, “Rainhas do Crime” pode até pecar pelos excessos e até inexperiência natural de Berloff no comando de um filme, mas, nada que atrapalhe uma subversão necessária para os manjados filmes de gangsters.

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