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A ideia era ótima: um documentário sobre a carreira de um dos maiores nomes da música norte-americana na atualidade, no formato Lego. Seria uma forma de injetar inovação em um gênero mais do que manjado na narrativa e nas escolhas visuais, a partir de uma empresa de brinquedos que conseguiu ir além de vender produtos, ao colocar boas doses de anarquia e ironia em suas obras.

Peça por Peça, entretanto, sucumbe a uma abordagem quadrada, até mesmo para um documentário tradicional, adotando a linha de biografia autorizada, em que o personagem principal busca se proteger de todas as formas e apenas exalta a si próprio. Todo o caos e bom humor vistos em ótimos filmes como Uma Aventura Lego e Lego Batman são deixados de lado, restando apenas o visual novamente impressionante e criativo.

A animação não traz um pingo de originalidade na narrativa, com o be-a-bá do gênero indo da infância até os dias atuais. Para piorar, a própria trajetória de Pharrell Williams não chega a ser tão diferente daquilo que já vimos tantas vezes em histórias de superação. Sente só: garoto deslocado no colégio encontra apoio na família (a avó) e na música; destacando-se ao lado de jovens promissores, ele encontra uma figura lendária que o projeta para a ascensão, começa a emendar um hit atrás do outro até se deixar levar por interesseiros. O astro só retorna ao topo ao dar valor àquilo que é mais importante: a sua essência. Tenha dó…

Não há uma revelação bombástica, uma declaração que pareça realmente sair do combinado, a ponto de dar a sensação de que Morgan Neville, Jason Zeldes, Aaron Wickenden e Oscar Vasquez estão mais para assessores de imprensa do que roteiristas. Chama a atenção, inclusive, como Peça por Peça está tão dedicado a exaltar a parte profissional de Pharrell que passa a elencar todos os grandes sucessos dele a ponto de deixar as relações pessoais de lado – a esposa do músico, por exemplo, surge no meio deste momento de forma apressada, some e só volta na reta final, mas, sem acrescentar algo minimamente interessante, sequer curioso. Isso tira qualquer conexão emocional e até mesmo a importância do que acompanhamos.

Cabe à criatividade visual salvar o filme desse estilo padrão de cinebiografia careta, sem riscos. Não que haja novidades gritantes, até pelo que já vimos nos filmes Lego anteriormente, mas é impossível não ficar admirado com a riqueza de detalhes na recriação das cidades e, principalmente, nos momentos musicais. Qualquer fã de cultura pop vai se divertir ao ver tantas estrelas da música em momentos de entrevistas, como Gwen Stefani, Snoop Dogg, Jay-Z e Justin Timberlake, assim como a recriação, no formato Lego, de clipes históricos, entre eles Rump Shaker, do Wreckx-n-Effect, I’m a Slave 4 U, de Britney Spears, Give It 2 Me, de Madonna, Happy e a maravilhosa Get Lucky, do Daft Punk.

Peça por Peça ainda consegue encontrar achados interessantes para representar o poder da música e seus efeitos de forma visualmente arrebatadora. A primeira audição de Pharrell de um álbum clássico do mestre Stevie Wonder, com as ondas sonoras ganhando um formato colorido que cerca o então menino, é de longe um dos pontos altos do longa. Isso se repete com as cápsulas para representar as batidas dos hits, assim como a sequência de uma banda entrando no refeitório do colégio, demonstrando como era possível ir mais longe com um pouco mais de ousadia.

Até nisso, o roteiro tenta estragar ao colocar Pharrell buscando teorizar por que aceitou ter a história contada no formato Lego – uma propaganda mal-feita, como não poderia deixar de ser nos filmes da empresa. Ainda assim, a beleza, a criatividade, as cores e as músicas são tão inebriantes que, por vezes, fazem esquecer todos os problemas de Peça por Peça.

Autor

  • Editor-chefe do Cine Set. Exerce o cargo de diretor de programas na TV Ufam. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas com curso de pós-graduação na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.

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