Caio Pimenta analisa os principais motivos que levaram à vitória de Jessie Buckley no Oscar 2026 de Melhor Ator por “Hamnet”.
Domínio absoluto na temporada
A vitória de Jessie Buckley no Oscar de Melhor Atriz foi construída a partir de um domínio praticamente absoluto ao longo da temporada de premiações. A atriz venceu os principais prêmios da corrida: Critics’ Choice Awards, Globo de Ouro, BAFTA e também o Actors Awards (prêmio do sindicato dos atores de Hollywood).
Essa sequência de vitórias criou um cenário de favoritismo muito claro. A cada nova cerimônia, Buckley voltava ao palco — mudando apenas o discurso ou o vestido — mas mantendo a mesma posição de destaque na corrida.
O contraste com temporadas recentes também chama atenção. Nos últimos anos, a categoria de Melhor Atriz teve disputas muito mais equilibradas, como o duelo entre Michelle Yeoh e Cate Blanchett em 2023, a corrida acirrada envolvendo Emma Stone e outras concorrentes em 2024, e até a presença de candidaturas internacionais que movimentaram a disputa em temporadas recentes.
Em comparação, a corrida deste ano teve uma vencedora praticamente incontestável desde cedo, consolidando o favoritismo de Buckley ao longo de toda a temporada.
O único prêmio possível para “Hamnet”
Outro fator importante foi o lugar ocupado por “Hamnet” dentro da temporada. Embora o filme tenha sido bem recebido e tenha garantido indicações relevantes, ele acabou ficando ofuscado por produções que dominaram a corrida em categorias principais, como Pecadores e Uma Batalha Após a Outra.
Nesse contexto, o prêmio de Melhor Atriz acabou se tornando o reconhecimento mais viável para o filme dentro do Oscar. A atuação de Buckley era, de longe, o elemento mais celebrado da produção.
Essa situação também reflete mudanças recentes no perfil da Academia. Há algumas décadas, um drama literário clássico como Hamnet, inspirado no universo de William Shakespeare, poderia facilmente se tornar um dos principais candidatos a Melhor Filme.
Hoje, porém, produções de gêneros antes pouco valorizados — como terror ou ação — passaram a ocupar espaços mais relevantes na premiação. Filmes como Pecadores ou Uma Batalha Após a Outra ilustram bem essa transformação no gosto da Academia.
Assim, dentro desse novo cenário, premiar Jessie Buckley acabou sendo a forma mais natural de reconhecer Hamnet na cerimônia.
Uma trajetória discreta, mas respeitada
A própria trajetória de Jessie Buckley na indústria contribuiu para a vitória. Embora ainda não seja uma estrela de grande apelo comercial, a atriz construiu ao longo dos anos uma carreira marcada pela consistência e pela qualidade de seus trabalhos.
Buckley já vinha acumulando performances elogiadas em produções relevantes. Entre seus papéis mais conhecidos estão A Filha Perdida, Entre Mulheres, Estou Pensando em Acabar com Tudo, além de participações marcantes na minissérie Chernobyl e no filme Judy: Muito Além do Arco-Íris.
Esse percurso demonstra uma escolha recorrente por projetos de caráter mais autoral ou artístico, em vez de apostar exclusivamente em grandes franquias comerciais.
Em um momento em que muitas estrelas de Hollywood direcionam suas carreiras para blockbusters e universos compartilhados, Buckley construiu uma imagem ligada à integridade artística e à busca por papéis desafiadores. Esse perfil costuma ser bastante valorizado dentro da Academia.
Ausência de rivais fortes
A disputa também foi favorecida pela ausência de concorrentes capazes de ameaçar seriamente o favoritismo da atriz. Algumas adversárias chegaram a aparecer durante a temporada, mas nenhuma conseguiu reunir força suficiente para desafiar sua liderança.
Rose Byrne, por exemplo, recebeu reconhecimento em premiações importantes, como o Globo de Ouro, mas seu filme não conseguiu uma indicação a Melhor Filme, algo que costuma ser decisivo para fortalecer uma candidatura de atuação.
Já Emma Stone, outra presença frequente na temporada, enfrentava a dificuldade de já ter vencido recentemente o Oscar, o que naturalmente reduz o entusiasmo por uma nova vitória tão cedo.
Outras indicadas também apareceram em filmes que não ganharam grande impulso ao longo da temporada. Sem uma concorrente consolidada, o caminho ficou ainda mais aberto para a consagração de Buckley.
Um papel clássico de grande apelo emocional
Por fim, o próprio perfil da personagem interpretada em “Hamnet” ajudou a impulsionar a vitória. Buckley interpreta uma mulher cuja trajetória é marcada por amor, perda e reconstrução — um arco dramático profundamente emocional.
Esse tipo de personagem possui um histórico forte dentro do Oscar. Ao longo das décadas, a Academia frequentemente premiou performances que retratam figuras femininas enfrentando tragédias pessoais e processos de superação.
Alguns exemplos lembrados nesse contexto incluem Brie Larson em “O Quarto de Jack”, Sandra Bullock em “Um Sonho Possível” e Meryl Streep em “A Escolha de Sofia”, papéis marcados por grande intensidade dramática e apelo emocional.
Nesse sentido, a vitória de Buckley também representa um retorno a um modelo mais clássico de atuação premiada pela Academia. Após três temporadas com personagens mais excêntricas ou estilizadas — como em “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” ou “Pobres Criaturas” — o Oscar voltou a reconhecer uma interpretação ancorada em um drama humano mais tradicional.















