Poucas atrizes do cinema mundial podem se orgulhar de ter prêmios em dois dos três maiores festivais do planeta. Rose Byrne é uma delas: venceu Melhor Atriz no Festival de Veneza no ano de 2000 com “A Deusa de 1967” e repetiu a dose na Berlinale com “Se eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria” neste ano.

O Oscar, entretanto, sempre a deixou de lado: Byrne nunca passou perto da indicação na Academia. Apesar de ter participado de grandes filmes – “Star Wars – Ataque dos Clones”, “Troia”, “Maria Antonieta” e da série “X-Men” -, ela sempre encontrou dificuldades de assumir o protagonismo em Hollywood. O maior espaço veio na comédia, principalmente, a partir do excelente “Missão Madrinha de Casamento” emplacando sucessos no gênero tanto no cinema quanto nas séries.

“Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” chega para colocar no radar da temporada de premiações. No filme, ela interpreta Linda, uma mulher que tenta lidar com a doença misteriosa de sua filha, seu marido ausente, uma pessoa desaparecida e um relacionamento cada vez mais hostil com seu terapeuta. Em entrevista coletiva com participação do Cine Set, Rose Byrne fala sobre o processo com a diretora Mary Bronstein, o peso emocional do papel e o desafio de equilibrar humor e desespero em seu novo filme.

PERGUNTA: Como você chegou ao filme e como foi a conversa com a diretora Mary Brodstein antes de aceitar o projeto?  

Rose Byrne – Trabalhar com a Mary foi extraordinário. Ela tem um foco grande na atuação por ter estudado esta área na NYU (Universidade de Nova York). Minha agente, sempre muito criteriosa, enviou o roteiro e disse: “acho que você deveria dar uma olhada nesse.” E ela nunca diz isso. Devorei o roteiro, e ele era exatamente como o filme que vocês viram. 

Era visualmente marcante. Havia muito humor no texto. No roteiro, o hamster é descrito como o Jack Nicholson em O Iluminado, tentando quebrar a porta. Então, a Mary capturou muito humor dentro da escuridão daquela situação. Claro que eu também me identifiquei, sendo mãe de duas crianças. Ela captura a incansável rotina da maternidade. Obviamente, a situação do filme é muito extrema, e a maioria dos pais nunca vai passar pelo que a Linda passa. 

Aceitei participar e passamos para a fase dos ensaios; nós duas, sentadas na mesa da cozinha dela, por cinco ou seis semanas, passando página por página, linha por linha. Fomos descascando a cebola, camada por camada, e isso foi um presente. Foi como preparar uma peça de teatro. A gente nunca tem esse tempo — é um luxo. E sem isso, acho que eu teria me sentido sem chão. Mas quando chegamos ao set, simplesmente mergulhamos. 

Foi um dos processos mais criativos da minha carreira, e trabalhar com a Mary foi inspirador. Ela é um talento enorme e uma força criativa. Ela é uma força da natureza, sem dúvida. É pequena, linda, delicada, mas é uma força. Ela empurrou esse projeto montanha acima. Levou oito anos desde o início até este momento em que estamos aqui. E filmamos em 27 dias. Não era um grande orçamento. É um filme ambicioso, e tudo foi feito de forma prática: pouca computação gráfica. O teto desabando, o hamster, as ondas… tudo foi feito fisicamente. Muitas dessas sequências, inclusive as cômicas, foram realizadas de forma prática. 

PERGUNTA: No filme, você está interagindo com alguém que não é visto de várias maneiras em muitas das cenas. Neste sentido, quais eram as instruções que Mary passava para você? 

Rose Byrne – De fato, você não vê a filha de Linda. Ela é apenas uma voz sem corpo, muito parecido com os homens do filme. Essa é uma ideia fantástica e existencial, pois, cerca a protagonista com todas essas vozes sem corpo porque ela está tão imersa nessa crise. 

Mas no set, Delaney Quinn interpretou a filha e foi maravilhosa, uma jovem atriz incrível, tão engajada e alegre. Para mim, foi perfeito. Então, nunca senti aquela falta de corpo ou a sensação de como o público experimenta isso visualmente.  

A mesma situação era com o Christian Slater: ele ligava de todos os cantos do mundo [risos] e fazíamos essas cenas juntos ao telefone, que são muito difíceis de fazer, especialmente porque o ator muitas vezes não está presente. 

PERGUNTA: Como mãe, houve algo na trajetória da sua personagem que lhe pareceu familiar? Ou você se descobriu encontrando novos ângulos sobre a maternidade através dela? 

Rose Byrne – O filme traz uma situação tão específica com esta criança doente e. obviamente, a maioria dos pais não passa por isso. A Mary Bronstein sempre foi meu ponto de referência nisso até pela história ter sido inspirado em uma experiência pessoal com o próprio filho. Também conversei com muitas mães de crianças com necessidades especiais, o que foi fascinante. 

A verdade é que ser pai ou mãe não é uma experiência igual para todos. Conversando com esses pais de crianças com necessidades especiais, cada um tinha uma experiência diferente sobre como isso afetava o trabalho, o relacionamento, o casamento, os outros filhos. Então, para mim, era: quem é essa mulher, essa personagem, e como ela está lidando com essa crise, e como isso é diferente de como eu lidaria ou de como você lidaria? Para mim, isso foi a chave para compreender a personagem. E, de fato, foi algo confrontador. 

É aquele clichê de que seu filho acaba te ensinando mais sobre você mesmo do que qualquer outra coisa. Eles são os maiores professores. E é o mesmo neste filme. Obviamente, é uma versão extrema disso e muito abstrata, mas o que tem sido realmente extraordinário é como as pessoas estão se relacionando com o filme, mesmo aquelas que não são pais. Tenho uma amiga querida que não tem filhos, e ela entendeu completamente o filme por causa do sentimento, da experiência que a Mary está criando ao assistir a esse filme. 

Cine Set – A câmera está sempre muito próxima de você, intensificando a sensação de sufocamento experimentada pelo seu personagem. Nesse sentido, como foi para você encarar a performance sabendo que tudo na tela é o seu rosto e suas expressões? 

Rose Byrne – É engraçado pensar nisso, porque a câmera estava tão perto do meu rosto o tempo todo que, enquanto eu atuava, havia uma sensação estranha de que ninguém realmente veria aquilo. Depois eu me dava conta: “Ah, é mesmo, todo mundo vai ver cada mínimo detalhe.” Acho que os atores têm essa espécie de dissociação necessária para conseguir mergulhar de verdade na performance, e isso me ajudou muito.  

De certa forma, eu já tinha passado por algo parecido em Physical, da Apple TV. Naquela série, eu tinha de atuar olhando só para a matte box (acessório para câmeras usado em fotografia e videografia para controlar a luz), sem trocar olhares com o outro ator. Esse tipo de experiência acabou sendo uma preparação técnica e emocional para este trabalho. Aqui, a relação com a câmera era totalmente diferente, quase como se ela fosse outro personagem. Quando entendi a linguagem da Mary, percebi que cada momento exigia algo específico: o que ela queria em uma cena não era o que ela precisaria em outra. EMeu trabalho se tornou decifrar o que aquele take pedia — e responder a isso. 

Às vezes a solução era tão simples quanto ficar completamente imóvel, segurar a respiração ou controlar o mínimo gesto. Depois que eu compreendi a lógica daquele olhar, parei de pensar tecnicamente e apenas fiz o que precisava ser feito — era meu trabalho, afinal. 

Quando vi o filme pronto, fiquei tão surpresa quanto qualquer espectador. Pensei: “Meu Deus… uau.” O que a Mary construiu com aquele material ia além de tudo o que eu tinha imaginado. A linguagem final do filme me impressionou profundamente. Foi muito impactante ver como ela costurou tudo — cada silêncio, cada expressão, cada respiração contida.  

PERGUNTA: “Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria” é muito pesado e sombrio, mas também tem momentos incrivelmente engraçados. Como você lida com isso durante as filmagens para mudar a chave de um momento para outro? 

Rose Byrne – Sempre admirei performances, roteiros e personagens que equilibram drama e humor no limite — e este filme me deu a chance de buscar exatamente isso, encontrar pequenos momentos cômicos mesmo nos instantes mais sombrios, seja na fisicalidade da personagem, nas cenas esquisitas com o A$AP Rocky ou até na sequência do hamster. 

A Mary também era muito conectada a essa busca, sempre tentando descobrir onde estava o humor dentro do caos. Mas é um equilíbrio delicado: se você passa do ponto, vira algo ridículo; se coloca humor de menos, o público pode se afastar porque o filme fica pesado demais. Então o desafio era conduzir uma história densa, sem quebrar emocionalmente o espectador, oferecendo respiros e pequenas válvulas de escape através do riso. E eu confesso: estou sempre procurando a piada [risos], pensando “como posso deixar isso engraçado?”. A comédia tem sido uma experiência criativa muito libertadora depois de tantos trabalhos dramáticos. 

Esse tipo de humor me encanta porque nasce de algo profundamente dramático. Já um trabalho como Amor Platônico é o oposto: bem mais leve, mais amplo e com muito improviso — uma forma completamente diferente de atuar, enquanto este filme exigia precisão absoluta com o texto. Mesmo assim, adorei transitar entre esses dois universos. Foi realmente um dos grandes prazeres criativos da minha carreira. No fim das contas, tudo nesse filme é sobre encontrar o tom — e esse tom é, de ponta a ponta, uma verdadeira corda bamba. Quando li o roteiro, pensei: “uau, ela criou uma atmosfera tão específica… como eu vou dar conta disso?”. E foi exatamente esse risco que tornou todo o processo tão empolgante para mim. 

PERGUNTA: Você tem alguma referência de artistas do cinema clássico que conseguiam transitar tão bem entre a comédia, a comédia física e o drama como você faz?  

Rose Byrne – Cresci assistindo Fawlty Towers, e sempre amei a comédia física do John Cleese, o quanto ele conseguia ser expansivo e absolutamente hilário. Ao mesmo tempo, era fascinada pela Julia Louis-Dreyfus em Seinfeld — eu adorava a Elaine, aquele tipo de personagem que fica na sua cabeça para sempre. 

Também amava terror: eu alugava A Hora do Pesadelo, que não tinha nada a ver com esses outros referenciais. Então, minhas influências sempre foram um pouco caóticas e diversas. E, claro, existem aquelas figuras clássicas como Katharine Hepburn — artistas que se tornaram intocáveis com o tempo e que hoje são mais raras de surgir. 

Sigo me inspirando muito em grandes atuações. Volto sempre ao James Gandolfini em Família Soprano. Para mim, é uma das maiores performances de todos os tempos. Ele era tão engraçado naquele papel, e ao mesmo tempo tão assustador. E por que continuávamos torcendo por ele? Por quê? Ele era um sujeito terrível, mas semana após semana a gente queria acompanhar sua história. Isso é raríssimo — é como capturar um raio na garrafa. 

Adoro também o Steven Yeun em Treta (Beef). Achei a interpretação dele fantástica: trágica, engraçada, profundamente humana. Eu torcia por aquele personagem mesmo enquanto ele fazia as piores escolhas [risos]. Então, sim, sigo sendo constantemente inspirada por outros atores e por grandes performances. E realmente espero que as pessoas continuem indo ao cinema para ver esse tipo de trabalho, porque eu sei o quanto está difícil levar o público para a sala escura. Mas vale a pena. Sempre vale. 

PERGUNTA: Eu queria saber como você lida pessoalmente com as pressões do trabalho, da vida e do fato de estar sempre sob os holofotes — algo que, neste mundo, parece ser ainda mais difícil para atrizes do que para atores. 

Rose Byrne – Ah, eu só bebo muito álcool (risos). Falando sério: às vezes pode ser tão simples quanto isso. Cada pessoa tem o seu próprio jeito de lidar com a pressão — alguns têm espiritualidade, outros seguem uma religião. Eu não tenho nada disso. Minha vida com o Bobby (Cannavale) é muito simples. Não somos cercados de muita gente. Temos uma comunidade em Brooklyn da qual realmente dependemos, e são essas relações que me sustentam. Também venho de uma família muito unida, e percebo que me apoio cada vez mais neles. 

O perigo, para mim, é quando a vida começa a correr na sua frente e você não consegue acompanhar. Então, busco equilíbrio como qualquer mãe que trabalha — ou qualquer pai. E, claro, existe mais cobrança sobre as mulheres. Mas, olhando para trás, acho que teria sido muito mais difícil lidar com fama e atenção quando eu era mais jovem. Sempre fui alguém que ficou um pouco abaixo do radar, trabalhando de forma contínua, e sou grata por isso. Hoje existe uma pressão enorme sobre os jovens, especialmente por causa das redes sociais. Acho que eu teria achado tudo muito sufocante. 

Sou sensível demais para esse tipo de exposição. Então, me sinto realmente grata pela minha família — eles são meu ponto de equilíbrio, meu chão. Eles me ajudam a lembrar por que escolhi fazer isso, o que ainda me inspira, e a me perguntar, de tempos em tempos, por que continuo. Porque a profissão pode ser exigente e desafiadora. E, ao mesmo tempo… às vezes você só precisa preparar um coquetel no fim do dia [risos], colocar um programa ruim na TV e simplesmente desligar. Acho que, no meu caso, é um pouco de tudo isso. 

Autor

  • Editor-chefe do Cine Set. Exerce o cargo de diretor de programas na TV Ufam. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas com curso de pós-graduação na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.

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